floquinhos

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Uma noite para não mais esquecer.

(Alguns dos alunos do curso de alfabetização de adultos

Ontem a noite foi diferente, especial.
Bia, minha neta, trabalha num projeto de alfabetização de adultos no colégio onde estudou e ontem era noite de encerramento do ano letivo, noite essa comemorada com muita festa. E como este ano o foco dos estudos foi a vida e a cultura de São Paulo na metade do século passado, fui convidada para falar sobre meu livro e contar algumas coisas desta cidade nos tempos de "antigamente". Já havia feito uma palestra sobre o livro em uma escola de português para crianças em Everet, no estado de Massachusetts, onde meus netos estudam e se atualizam em nosso idioma, mas falar para crianças é diferente de falar para adultos, ainda mais adultos que descobrem agora o prazer do conhecimento. Pelo menos era isso que eu pensava!... Mas ...
No enorme salão, em cadeiras dispostas em círculo, foram se sentando homens e mulheres de rostos marcados pelo tempo e pelas intempéries da vida. Todos vindos de outras regiões do país, todos com histórias muito mais marcantes para contar do que as que eles se propunham a ouvir naquele momento. Aparentemente intimidados, contidos, mas olhos brilhantes porque aquele momento era deles.
A coordenadora fez as apresentações, falou-lhes sobre o porque de minha presença e eu fiquei ali, meio sem saber como começar a contar-lhes coisas que eles já sabiam, pois tinham vivido situações parecidas, apenas em outro contexto, em outra época. Mas à medida em que ia falando, olhando aqueles rostos que iam se abrindo em sorrisos, tudo foi ficando mais fácil e ao final, estávamos trocando idéias e eles pareciam felizes com o momento.
Depois da "palestra", eles cantaram juntos uma canção muito linda que falava sobre a Vila Madalena (onde se situa o colégio), que é um dos bairros mais charmosos da cidade - e onde tenho o prazer de morar, após o que houve a apresentação de um DVD e eles puderam assistir a festa de encerramento do semestre anterior - e aqui abro um parênteses para dizer que o tema daquela vez fora poesia e foi lindo ve-los declamar quadras e pequenos poemas feitos por eles mesmos, expondo sentimentos e sonhos, de maneira simples, como simples é a alma desse gente sofrida que aqui chega sem nem ter a menor noção do que vai encontrar pela frente, aqui vive uma vida de luta e muito trabalho até que, pouco a pouco, vão construindo seu lar, um lar sólido que os abrigará finalmente. E ver essas pessoas que trabalham o dia todo, geralmente em tarefas pesados, ao chegar a noite, ao invés de se acomodarem num sofá diante da TV, engolirem seu jantar às pressas, pegarem seus livros e irem para uma escola em busca do saber, é lição de vida, de coragem, de luta... São pessoas que, realmente, estão em busca do tempo perdido (com a licença de Proust).
Quando sai, levando nos braços um lindo arranjo de flores que me foi ofertado, eles ficaram comemorando e festejando mais uma etapa vencida, diante de uma mesa de deliciosos petiscos que as professoras preparam carinhosamente para eles.
Um lindo trabalho voluntário de professoras e alunos do Colégio Oswald de Andrade, daqui da Vila. Parabéns a todos. Aos professores e coordenadores pelo trabalho, pela dedicação, pelo despreendimento, pela tentativa de realização do sonho de ver um pais melhor, com cidadãos mais instruidos, mais conscientes. Parabéns aos alunos que se alfabetizam na vontade de realizarem seus sonhos, de se tornaram mais integrados no mundo atual e, principalmente pela força de vontade de sairem em busca do conhecimento que lhes abrirá novos caminhos, modestos ainda, mas com oportunidades bem maiores.
Foi uma noite para não mais esquecer...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Dando boas vindas à Mariana...

(Mari e Caio)

Hoje estava aqui, cismando, conversando com meus botões sobre o acelerado passar do tempo.
É que esta manhã, ao abrir meu blog, deparei-me com um comentário lindo, deixado por uma pessoinha mais linda ainda, que anda fazendo de meu neto um homem feliz. Imaginem só, meu neto, aquele garotinho lindo que fazia meu coração derreter quando sorria pra mim, hoje um homem, de dezoito anos, prestando vestibulares, abrindo seus braços para o mundo, o Caio, namorado da Mariana, uma linda jovem de olhar meio travesso, de sorriso lindo, com uma postura elegante, um tantinho diferente das adolescentes de hoje, só um tantinho, porque mais elegante.
Pois a Mariana, a Mari, como costuma ser chamada, está dando seus primeiros passos na blogosfera; seu blog , o "Idéias e Ideais - em Constante Mudança!", tem poucos dias de vida, mas já mostra ao que veio.
O fato é que fiquei muito feliz com a presença dela em meu espaço e quero, daqui da minha sala de visitas, dar-lhe as boas vindas e desejar que ela encontre por aqui as mesmas alegrias e o mesmo carinho que venho recebendo. Espero que ela encontre amigos e leitores tão gentis e carinhosos como os que tenho aqui no Em Prosa E verso. Seja muito bem vinda, Mari.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A canção do amor imprevisto


(Mario Quintana)

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoista e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita...
A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Drummond - Um pensamento

(Igreja da Consolação - SP)

"Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz."

Eu e minha cidade...

(São Paulo - Av. Paulista)

Nesta manhã de segunda-feira, já em contagem regressiva para o Natal, a cidade está cinzenta, agitada... Preciso sair, mas só em pensar que vou ter que perder horas no trânsito, perco o jeito... Meu Deus, o que fizemos com esta cidade? Houve tempo em nos orgulhávamos de ser "o maior centro industrial da América Latina", "a cidade que mais cresce no mundo"! Era tanto ufanismo que esses dísticos vinham escritos nas costas dos bancos, nos bondes dos anos cinquenta. E veja só aonde viemos parar, em que nos transformamos! Um amontoado de problemas, desde habitação até a segurança, da educação aos problemas médico-hospitalares, todos gigantescos. E a cidade que era grande, era acolhedora. Tanto que para cá vieram povos e raças, e vieram brasileiros de todos os cantos do país, todos acolhidos com amor, cada um transformando um pedacinho da paulicéia que já foi desvairada em um lar. E foram mudando a paisagem, transformando-a em cidade agitada, pujante, nervosa. Mas ao mesmo tempo, continuou cultural - com seus centros educacionais, seus teatros, suas casas de espetáculo, sua vida noturna, museus e galerias de arte, seus restaurantes que a transformaram em capital mundial da gastronomia, enfim, todo um centro de conhecimentos, aprendizado, entretenimento. Continuou como polo financeiro e industrial, como centro médico de referência, como centro comércial fervilhante, oferecendo assim um mundo de oportunidades para os que não temem o trabalho e tem força bastante para a luta. E nela vamos vivendo ou sobrevivendo todos, ricos, pobres e miseráveis, cultos ou incultos, refinados ou rudes, em ilhas de prosperidade e luxo - bairros do primeiro mundo, regiões habitadas e frequentadas pela elite, ou em bairros de classe média aonde a vida ainda corre, digamos, em proximidade com o que seria considerado ideal, ou mesmo em bairros mais pobres, onde a vida é mais dificil de ser levada ou ainda em favelas, aonde habitam pessoas que chegaram cheias de sonhos que ainda não conseguiram cumprir. Mas o pior é a enorme população dos sem-teto, dos moradores de rua, gente que chegou ao fundo do poço e que só um milagre da vida os conseguirá reerguer. Um milagre da vida ou a tomada de consciência dos nossos governantes que não conseguem, de forma alguma encontrar o caminho, acertar o rumo desta cidade linda, acolhedora apesar de tudo, carente de cuidados e de afeto...
Não era nada disso que eu me propunha a falar hoje, mas por vezes as idéias se confundem, as palavras tomam vida e se impõe e, quando nos damos conta, enveredamos por outros caminhos do pensamento... Como hoje que, sem me desse conta, acabei traçando um flash desta incompreendida mas muito amada cidade que me viu nascer, crescer, amadurecer... Vi seu crescimento descontrolado, acompanhei suas mudanças, lamentei muitos de seu momentos, sem nunca deixar de amá-la... Sem nenhum bairrismo. Apenas com gratidão.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Clarice Lispector ao anoitecer


"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente."

sábado, 5 de dezembro de 2009

Meus Poetas do Coração - Fernando Pessoa


Reticências

Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar,
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta,
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...

(Álvaro de Campos)