Ela fôra a Salvador a convite daquele parente distante que tomara para si a tarefa de organizar a árvore genealógica da família e que, para isso, pedira-lhe que levasse consigo fotos antigas, cartas ou documentos que porventura tivesse e que pudessem ajudar nas pesquisas. Durante três dias tinham trabalhado arduamente na tentativa de organizar todos aqueles dados corretamente. Em dois dias viajaria de volta para casa e nem tivera tempo, ainda, de conhecer a cidade, aquela cidade que desde os tempos de sua juventude aprendera a amar através dos livros de Jorge Amado. Na verdade, não só a cidade, mas a Bahia, como um todo, povoava sua imaginação de magia, exercendo doce fascínio sobre ela.
Terminado o jantar, decidiram tomar o licor no terraço, onde a brisa do mar trazia um certo frescor àquela noite tão quente. Assim que transpôs a porta, a magia da noite tomou conta de sua alma; noite envolta em um luar imenso que se esparramava por sobre o mar sereno, mar sobre o qual parecia debruçar-se o terraço... Foi tão intensa a sensação de encantamento que a envolveu que não conseguiu reter a lágrima que lhe desceu pela face. A música que vinha da sala era a mesma que acalentara seus primeiros sonhos de menina, seu primeiro amor, platônico e nunca esquecido.
Foi quando sentiu a mão dele retirando o cálice de licor de entre seus dedos e, convidando-a para dançar, tomou-a docemente em seus braços. Fechou os olhos deixando-se levar pela fantasia do momento, como se o tempo não tivesse existido e o sonho fosse, finalmente, realidade... Como se mais de quatro décadas não se tivessem passado desde que o vira pela última vez.
Terminada a música, Marina olhou-o nos olhos, doce e profundamente, e sussurrou:
- Obrigada...
- Mas, pelo que?
- Sabe, Pedro, desde minha adolescência trazia em mim um momento não vivido, um momento perfeito, um sonho que sempre pensei impossível... Houve um príncipe muito encantado que jamais percebeu que eu existia... Houve um amor, primeiro e lindo, sem a menor chance de ser correspondido... Houve o sonho de uma noite de luar, num terraço mágico, ao som da voz de Billy Eckstine interpretando Blue Moon, a música de minha vida.. E nesse sonho, o príncipe tomaria a sonhadora menina em seus braços e sairiam dançando pela noite, em puro encantamento...
Sentindo-se enternecido, Pedro murmurou:
- Só faltou o príncipe...
- Não... Nem isso... Sussurrou Marina.
(Uma história retirada do baú de sonhos perdidos)
Março de 2010






