floquinhos

domingo, 3 de junho de 2012

Sob a doce magia do luar...


Ela fôra a Salvador a convite daquele parente distante que tomara para si a tarefa de organizar a árvore genealógica da família e que, para isso, pedira-lhe que levasse consigo fotos antigas, cartas ou documentos que porventura tivesse e que pudessem ajudar nas pesquisas. Durante três dias tinham trabalhado arduamente na tentativa de organizar todos aqueles dados corretamente. Em dois dias viajaria de volta para casa e nem tivera tempo, ainda, de conhecer a cidade, aquela cidade que desde os  tempos de sua juventude aprendera a amar através dos livros de Jorge Amado. Na verdade, não só a cidade, mas a Bahia, como um todo, povoava sua imaginação de magia, exercendo doce fascínio sobre ela.
Terminado o jantar, decidiram tomar o licor no terraço, onde a brisa do mar trazia um certo frescor àquela noite tão quente. Assim que transpôs a porta, a magia da noite tomou conta de sua alma; noite envolta em um luar imenso que se esparramava por sobre o mar sereno, mar sobre o qual parecia debruçar-se o terraço...  Foi tão intensa a sensação de encantamento que a envolveu que não conseguiu reter a lágrima que lhe desceu pela face. A música que vinha da sala era a mesma que acalentara seus primeiros sonhos de menina, seu primeiro amor, platônico e nunca esquecido.
Foi quando sentiu a mão dele retirando o cálice de licor de entre seus dedos e, convidando-a para dançar, tomou-a docemente em seus braços. Fechou os olhos deixando-se levar pela fantasia do momento, como se o tempo não tivesse existido e o sonho fosse, finalmente, realidade... Como se mais de quatro décadas não se tivessem passado desde que o vira pela última vez.
Terminada a música, Marina olhou-o nos olhos, doce e profundamente, e sussurrou:
- Obrigada...
- Mas, pelo que?  
- Sabe, Pedro, desde minha adolescência trazia em mim um momento não vivido, um momento perfeito, um sonho que sempre pensei impossível... Houve um príncipe muito encantado que jamais percebeu que eu existia... Houve um amor, primeiro e lindo, sem a menor chance de ser correspondido... Houve o sonho de uma noite de luar, num terraço mágico, ao som da voz de Billy Eckstine interpretando Blue Moon, a música de minha vida.. E nesse sonho, o príncipe tomaria a sonhadora menina em seus braços e sairiam dançando pela noite, em puro encantamento...
Sentindo-se enternecido, Pedro murmurou:
- Só faltou o príncipe...
- Não... Nem isso... Sussurrou Marina.

(Uma história retirada do baú de sonhos perdidos)
Março de 2010

terça-feira, 29 de maio de 2012

A canção da vida...


Inscrição Para Uma Lareira


A vida é um incêndio; nela
dançamos, salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!


Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...


(Mario Quintana)



segunda-feira, 28 de maio de 2012

Escrever é muito pessoal...


"Escrevo como se estivesse dormindo e sonhando: as frases desconexas como no sonho. É difícil, estando acordado, sonhar livremente nos meus remotos mistérios."

(Clarice Lispector)


quinta-feira, 24 de maio de 2012

É coisa de alma...


"Mais tarde eu saberia que certas experiências se partilham - até mesmo sem palavras - só com gente da mesma raça. O que não significa nem cor, nem formato do olho, nem tipo de cabelo, mas o indefinível parentesco da alma."

(Lya Luft)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Ainda sobre o tempo...


Novamente segunda-feira! O tempo já nem corre, ele voa. Os dias parecem mais curtos, as semanas vão se escoando e, quando nos damos conta, o ano que parece ter começado ontem já vai pela metade.
Não sei se por magia ou encanto, mas o tempo, na infância, parecia caminhar como uma lesma... As férias escolares demoravam a acontecer, aniversário e Natal pareciam ocorrer a cada dois ou três anos, e, "ser moça" parecia tão, mas tão distante... Agora, caminhando pelos doce-amargos caminhos do outono da vida, quando o tempo ficou mais e mais precioso, agora que gostaríamos de vê-lo caminhar lentamente,  na mesma medida em que vamos nós caminhando mais e mais lentamente, ele corre célere e chega até a assustar-nos com sua passagem, pois vai carregando consigo algumas expectativas e muitos sonhos. 
Mas essa é a lei da vida e talvez seja exatamente isso o que torna o viver tão emocionante, tão precioso. 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Aprendendo com o tempo...



Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutíl diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes, não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança...

(William Shakespeare) 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O sol que aquece o dia...

(A sesta - Van Gogh)

Céu azul, de brigadeiro, o sol esparramando-se por sobre a cidade nesta quarta-feira de outono. Mas um friozinho que pede aconchego e alguma roupa um pouco mais quentinha vem nos alertar para o fato de que o inverno, já tão próximo, ao que parece, vai ser rigoroso. Talvez lá por Sampa o dia esteja enfarruscado, cinzento, o que não seria de estranhar, então só posso agradecer por esta cidade ser um pouco menos fria,  o que faz um bem enorme aos meus ossinhos que já andam brigando com uma artritezinha a cada vez que o tempo muda... Coisas da juventude... rs...  

Olhando o sol esparramado lá fora, sol que sugere um momento para lagartear sentada no banco do jardim, deixando que ele aqueça cada pedacinho de mim, acabo por me lembrar de um dos incríveis poemas de Drummond sobre o cotidiano mineiro e, por ser puro Drummond, deixo-o aqui para complementar esta postagem com cara de preguiça.



Sesta

A família mineira
está quentando sol
sentada no chão
calada e feliz.
O filho mais moço
olha para o céu,
para o sol não
para o cacho de bananas.
Corta ele, pai!
O pai corta o cacho
e distribui para todos.
A família mineira
está comendo banana.
A filha mais velha
coça uma pereba
bem acima do joelho.
A saia não esconde
a cocha morena
sólida construída,
mas ninguém repara.
Os olhos se perdem
na linha ondulada
do horizonte próximo
(a cerca da horta).
A família mineira
olha para dentro.
O filho mais velho
canta uma cantiga
nem  triste nem alegre,
uma cantiga apenas
mole que adormece.
Só um mosquito rápido
mostra inquietação.
O filho mais moço
ergue o braço rude
enxota o importuno.
A família mineira
está dormindo ao sol. 

(Carlos Drummond de Andrade)