floquinhos

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Cantigas...


Andorinha


Andorinha lá fora está dizendo:
— "Passei o dia à toa, à toa!"


Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . . .



(Manoel Bandeira)

A snow storm... again...


Faz dois dias que começaram a falar, por aqui, em nova nevasca para esta madrugada de quarta-feira. Mas ontem o céu estava azul, dando o direito da dúvida a esta estranha em terra alheia. Mesmo assim, a casa ficou toda de sobreaviso. A tardinha fomos ao supermercado comprar alguns artigos de última hora e o encontramos cheio de gente fazendo suas compras para uma reserva caso  "the snow storm" os impedisse de sair de casa por dois ou três dias. Aí comecei a acreditar que realmente teríamos muita neve. E a confirmação veio a noite, quando o superintendente das escolas de Winchester deixou um recado no celular de minha filha - recado transmitido sempre a todos os pais de alunos, quando alguma coisa diferente acontece -  avisando que as aulas estariam suspensas hoje - para alegria dos kids, pois um feriado assim, no meio da semana, ainda mais inesperado, caia do céu. Minha filha então ligou para um dos serviços de retirada de neve da frente das garagens das casas e já deixou acertado que eles viriam fazer a retirada, sempre que uma certa quantidade de neve tivesse se acumulado nas passagens, com é lei por aqui - a prefeitura cobra pesadas multas se as passagens de pedestres, ou de carros, não forem devidamente desobstruídas. Casa abastecida, retirada da neve acertada, tudo arranjadinho para enfrentar o que viesse por ai...
Acordo hoje com a cidade no meio da maior neve!... A janela de meu quarto semi coberta pela dita cuja, jogada lá pela força do vento e, lá fora, tudo branquinho, fofinho, geladinho, ou melhor, geladérrimo!!! 
O vento sopra forte la fora, mas o calorzinho dentro da casa aquece e reconforta. Passa um pouco da sete da manhã e todos ainda dormem. O café da manhã de hoje promete ser muito mais agradável, com todos a mesa e os meninos sem pressa pelo horário da passagem do ônibus, o que vai-nos permitir saborear calmamente os deliciosos Waffles regados com "maple syrup", acompanhados de morangos e creme chantilly - uma gostosura reservada aos dias especiais, quando não se tem hora para nada...  Depois teremos um dia todinho para estarmos em companhia uns dos outros, o que é o melhor de tudo isso. Um dia tão feio lá fora, precisa ter calor, alegria e amor familiar que possa transformar o frio inverno e o isolamento que ele impõe, em agradáveis momentos... 
Deem uma espiadinha pela minha janela e vejam só que paisagem mais desolada...


Foi esta a visão que tive ao acordar, da janela de meu quarto, com as vidraças toldadas pela neve


E olhando através dela, foi exatamente assim, embaçada, que vi a paisagem branca desta manhã.


Os caminhões começam a tentar desobstruir as ruas para a passagen dos carros  (dos poucos que se atreverem a sair de suas garagens, hoje)






segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Soneto a quatro mãos

)

Tudo de amor que existe em mim foi dado
Tudo que fala em mim de amor foi dito
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.



(Vinicius de Moraes / Paulo Mendes Campos)

Por aqui (ainda) alguns ecos do Natal...



Joaninha costumava correr solta pelas ruas em brincadeiras com suas amiguinhas, pulando corda e amarelinha, brincando de roda, de boneca, desenhando sobre a calçada, com pedaços de carvão que pegava na cesta ao lado do fogão, aproveitando a doce liberdade que era privilégio daqueles tempos.
Era uma rua antiga, habitada por imigrantes europeus. Eram os primeiros anos da década dourada do século passado...  Era um mundo que, visto através do prisma do tempo, era pura magia...
Era manhã de Natal e, como em todas as manhãs de Natal, as crianças reuniam-se nas portas das casas para exibir o presente que Papai Noel havia deixado para cada uma delas. Havia uma quase igualdade naqueles presentes, posto que havia uma quase igualdade em cada um daqueles lares habitados por famílias menos favorecidas. Mas, naquele ano foi diferente.
Dois ou três meses antes, mudara-se para um dos casarões uma pequena família que, diferente das outras, tinha uma melhor posição social. Um casal e uma única filha, uma menina que parecia frágil e doentia, que com seus lindos vestidos e seus sapatos graciosos, destoava claramente das outras meninas.
Naquela manhã, as meninas, num alarido, exibiam suas bonecas, simples, feitas de pano (algumas por suas próprias avós) que Papai Noel havia deixado em seus sapatinhos, quando Maria Lúcia, pelas mãos de sua mãe, passou por elas carregando nos braços a mais linda visão que já havia povoado seus pequenos mundos... Uma boneca de porcelana! Linda, ricamente vestida, longos cabelos arrematados por um delicado chapéu, nos pés graciosos sapatinhos dourados. Fez-se silencio a sua passagem.
Bocas entreabertas de espanto, olhinhos esbugalhados de admiração, não conseguiam dizer palavras.
Ao perceber o impacto que causara entre suas pequenas vizinhas, a petulante garota semicerrou os olhos, levantou o queixo num gesto de enfado e, virando-se para a mãe, disse: “Veja, mamãe, as pobretonas estão com inveja da minha bonequinha...” A um “não liga...”, da mãe, ambas apressaram o passo e foram sumindo no final da rua.
Mal refazendo-se do espanto, Joaninha saiu correndo em direção a sua casa onde encontrou a mãe preparando o almoço de Natal. Segurando-a pelo avental, como a exigir atenção, foi logo contando o que se passara lá na rua e dizendo que Papai Noel não era justo, porque dava aquela menina que já tinha tudo, seu mais lindo presente e a elas, que nada tinham, ofertava simples bonequinhas de pano.
A mãe envolvendo-a num abraço, tentando segurar as lágrimas que insistiam em marejar-lhe o olhar, buscando palavras para explicar o inexplicável, mal conseguiu murmurar: “A minha filha, o mundo é um caminho de injustiças.

Quase cinquenta anos depois, cumprindo um ritual sagrado para seu Natal, Joaninha chegava aquele orfanato, com as amigas, carregando tantos e tão lindos brinquedos para que os pequenos órfãos, já nascidos injustiçados, tivessem, pelo menos, um Papai Noel mais justo...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Há pessoas que...



"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre."

(Cecilia Meireles)

sábado, 8 de janeiro de 2011

Em uma separação...


"Aqueles que se amam e são separados podem viver sua dor, mas isso não é desespero: eles sabem que o amor existe."

(Albert Camus)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Nas madrugadas do tempo...


Acordou com o barulho do vento que dançava entre os galhos ressequidos do bosque e, imaginando o frio que deveria estar fazendo lá fora, enrodilhou-se entre os lençóis, numa tentativa inútil de voltar a dormir. Era madrugada e ela sempre tivera um quezinho pelas madrugadas quando, a casa em silêncio e a cidade semiadormecida, davam-lhe a falsa sensação de que a paz reinava sobre o mundo, sobre os homens.

Sem conseguir voltar a dormir, saiu da cama e, apanhando o robe que repousava sobre a poltrona, envolvendo-se em seu aconchego, dirigiu-se até a janela. Ao abrir as cortinas deu com a beleza da neve caindo sobre o gramado, iluminada apenas pela fraca luz que vinha do poste de iluminação colocado quase em frente a casa.

E sem saber bem porque, viu-se em outra madrugada insone, diante de uma outra janela, depois de acordada pelo zunir do vento que corria por entre as casas daquela rua antiga, prenunciando uma tempestade de verão. Reviu-se jovem e cheia de sonhos, sem a menor consciência do que a esperava pelas esquinas do tempo, dos longos caminhos que ainda haveria de percorrer até chegar aquele momento.

Naquela outra madrugada, lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, lavando-lhe a alma daquela tristeza que lhe parecia sem fim e que, a luz do tempo, demonstrou ser nada mais, nada menos, do que uma tempestade num copo d’água... Ah, as doces paixões da adolescência!... Ah, a primeira paixão, quase sempre não correspondida, quase sempre inesquecível... A imagem dele ainda bailava em sua mente, congelada pelo tempo, numa linda figura de príncipe encantado... Seus olhos castanhos, seu sorriso límpido de quem anda de bem com a vida, sua voz, seus cabelos, seu porte... Vindos através dos anos, rodopiavam em torno dela, revestindo-a de saudade... Saudade dele, dela, da juventude que um dia habitara aquele corpo alquebrado e que ficara lá longe, dos sonhos que a acalentaram, de tudo o que o tempo reteve em seus caminhares...

Sentindo o frio da madrugada, deixou a janela, sentou-se na poltrona, encolhida, cobrindo as pernas com uma manta e, antes de abrir o livro que a esperava sobre a mesinha lateral, ainda ficou uns minutos cogitando sobre o quão bom era sentir tão doce saudade... Tão bom ter tais momentos guardados dentro de si, mostrando que a vida foi vivida com intensidade, com paixões, com sonhos, com esperanças, com amor... Lembranças que mostravam claramente que valera a pena cada passo percorrido nesse longo caminhar... Que razão tinha nosso Fernando Pessoa ao afirmar que “tudo vale a pena se...”