floquinhos

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Como o vento largo...


NOÇÕES

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a.
Minha virtude era essa errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Oh! meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua entre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

(Cecília Meireles)

A Poeira do Tempo...


"Porque entre o sim e o não é só um sopro, entre o bom e o mau apenas um pensamento, entre a vida e a morte só um leve sacudir de panos - e a poeira do tempo, com todo o tempo que eu perdi, tudo recobre, tudo apaga, tudo torna simples e tão indiferente."

(Lya Luft)

terça-feira, 4 de maio de 2010

Um menino condenado ao banho...


Um Poeta consegue transformar até um prosaico banho de bacia num poema encantador...
Está aí nosso Mestre Drummond para confirmar o que digo.



BANHO DE BACIA

No meio do quarto a piscina móvel
tem o tamanho do corpo sentado.
Água tá pelando? mas quem ouve o grito
deste menino condenado ao banho?
Grite a vontade.

Se não toma banho não vai passear.
E quem toma banho em calda de inferno?
Mentira dele, água tá morninha,
só meia chaleira, o resto é da bica.

Arrisco um pé, outro pé depois.
Vapor vaporeja no quarto fechado
ou no meu protesto.
A água se abre à faca do corpo
e pula, se entorna em ondas domésticas.

Em posição de Buda me ensaboo,
resignado me contemplo.
O mundo é estreito. Uma prisão de água
envolve o ser, uma prisão redonda.
Então me faço prisioneiro livre.
Livre de estar preso. Que ninguém me solte
deste círculo de água, na distância
de tudo mais. O quarto. O banho. O só.
O morno. O ensaboado. O toda vida.

Podem reclamar,
podem arrombar
a porta. Não me entrego
ao dia e seu dever.

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O poeta e as palavras...


O tempo de Ofício

Só lendo é que vou saber:
o que escrevi já caiu
na vida, não me pertence.
Leio e me assombro: as palavras
que arrumei com paciência,
severo de inteligência,
cuidando bem da cadência,
perseverante escolhendo,
não escondo, as mais sonoras
e as que gostam mais de mim;
dando a cada uma o lugar
merecido no meu verso
(que desta ciência os segredos
me deu o tempo de ofício,
um exercício de amor),
pois as palavras começam
a dizer coisas que nunca
ousei pensar nem sonhar,
pássaros desconhecidos
pousando no meu pomar.

(Thiago de Mello)

Book - Blogagem Coletiva


Para ouvir o vídeo, por favor, desligue a música de fundo no final da página. Obrigada.



Comemora-se hoje o Dia da Liberdade de Imprensa e, por isso mesmo, foi o dia escolhido pelo "Marcas D'Água", com o apoio de outros blogs, para esta blogagem coletiva que o "Em Prosa e Verso" aplaude e à qual se incorpora, aceitando um repto feito pelo Carlos, do "Conversas Daqui e Dali",

O vídeo revela-nos uma fantástica «descoberta» científica! Experimente este novo produto, o Book, vai ver que vale a pena.

domingo, 2 de maio de 2010

Para minhas amigas do além-mar


Em Portugal, festeja-se hoje o Dia Das Mães.
Quero deixar aqui um abraço muito carinhoso para as mães portuguesas e em especial para as queridas amigas e leitoras do Em Prosa e Verso, As flores são para o coração de cada uma de vocês, desejando que este dia seja lindo, feliz, especial. Parabéns a todas.
Feliz Dia da Mães!

sábado, 1 de maio de 2010

Conclusão...


AMOR


Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

(Paulo Leminski)