ROSA DA ENCARNAÇAO
Sempre que se fala em chegada da televisão ao Brasil, sempre que se comenta sobre como os primeiros aparelhos despertaram a curiosidade de todos e em como quem não dispunha de meios para a compra do seu, muitas vezes ia às casas vizinhas (eram os tele-vizinhos) ou à casa de parentes, para assistir um ou outro programa de maior sucesso, é uma de minhas tias, a irmã mais nova de meu pai que me vem à mente.
Eu era adolescente e teatro, para nós das classes menos privilegiadas, era apenas mais um sonho... O máximo que conseguíamos era ir uma vez por semana ao cinema do bairro, e muitos de nós, nem isso. Por essa época a TV Tupi – a primeira estação de televisão da América Latina – costumava levar ao ar, nas noites de Segunda-feira, o Tele-Teatro Tupi, a TV de Vanguarda. Peças consagradas interpretadas pelos mais famosos atores de nosso teatro eram levadas ao vivo já que o vídeo-tape só surgiria muito tempo depois. Foi quando vi por primeira vez “Casa de Bonecas” e “A Morte do Caixeiro Viajante” entre tantas outras obras mundialmente famosas. E esse era um programa que encantava meu pai. Só que, como não tínhamos, àquela época, condições financeiras para comprar um aparelho de TV, então, a convite de minha tia, vez por outra íamos assistir em sua casa o tele-teatro. Eram momentos de emoção ver Sérgio Cardoso, Cacilda Becker, Eva Todor. José Parisi, e tantos e tantos outros maravilhosos astros vivendo personagens inesquecíveis.
Lembro-me, além do teatro, do cafezinho encorpado, cheiroso, delicioso que nos era servido no primeiro intervalo entre um ato e outro. Mas minha mais doce lembrança é a da figura singela, bonita, suave de minha tia, ainda hoje em seus oitenta anos e apesar de quase cega, uma doce mulher. Foi sempre uma mulher lutadora que criou seus cinco filhos com muita garra, sofrendo as agruras de um casamento desencontrado, mas que nunca se perdeu de si mesma. Seus miúdos olhos castanhos são de uma doçura sem par e sua voz terna, suave, é um acalanto... Muito linda quando jovem, traz ainda traços dessa beleza em seu rosto já marcado pelo tempo e conserva ainda em sua alma todo o amor que sempre espalhou em torno de si. Fascina-me sua figura, fascina-me seu nome: Rosa da Encarnação! Já nascida no Brasil, recebeu um nome tipicamente português, escolhido muito provavelmente para homenagear algum parente que por terras de além mar ficara, nome que em família foi abreviado, como sempre acontece – por mais lindos e pomposos que sejam os nomes que os pais escolhem para seus filhos, sempre são abreviados – passando a ser pura e simplesmente a Encarnação, ou ainda, para suas irmãs, a Carná.
Pois minha doce tia Encarnação é também minha madrinha de crisma e muito me orgulho disso. Madrinha melhor, nem mais doce, jamais poderia ser encontrada. Embora a vida tenha nos colocado sempre distantes uma da outra, apesar de não morarmos fisicamente longe, vejo-a muito raramente. Impedida pela diminuição da visão de sair de casa, o que só faz por muita insistência de seus familiares, vive cercada pelo carinho dos filhos e dos netos que têm sido a recompensa de anos sofridos, transformados agora em um entardecer sereno, pleno de paz. Mas, sempre que falamos ao telefone, aquela doce vozinha chega com sons de sorriso, de ternura, hoje, como na minha infância, pondo paz em meu coração, ao dizer: “Oi Doçura, que saudades!...” Saudades tenho eu, minha doce madrinha, saudades dos tempos em que, pequenina, me abrigava em seus braços, me deixava levar pelo seu carinho, sem sequer me dar conta de quanto sua presença seria importante ao longo de minha vida, como exemplo de abnegação e bondade.
(Do livro "Encontro com a menina que eu fui")