Sabe esses dias em que você acorda com a alma no passado? Esses dias em que, por ser domingo e você poder ficar um pouco mais entre os lençóis, vem aquela preguicinha envolvente fazendo com que se enrodilhe e permaneça de olhos fechados, viajando pelas memórias? Pois hoje é um desses dias... Um desses dias em que abri meus olhos para dentro e mim mesma e encontrei-me em meu pequeno quarto, espaço que dividia com minha irmã e minha prima, ouvindo-as conversarem sobre o passeio que fariam logo mais a tarde, mas eu, pirralha ainda, nem poderia opinar, quanto mais participar... Teria que me contentar mesmo com a matinée do velho Cine Ideal, o que já era bom demais. Minha mãe entrava no quarto avisando que se não me apressasse acabaria perdendo a missa das oito, especial para crianças e eu ficava imaginando quando me seria permitido ir a missa das dez, ou das onze, quando a igreja ficava tomada por jovens que, entre uma ave-maria e outra arriscava um olhar sorrateiro para alguém que estivesse por perto, sorrateiramente olhando também... As crianças têm pressa em crescer, só mais tarde vão perceber a alegria de ser criança.
Depois da missa, encontrava a casa parecendo estar sempre em festa, com as mulheres na cozinha preparando o almoço especial de todo domingo, os homens na sala "jogando conversa fora" e já pensando na partida de futebol que seria disputada logo mais a tarde e que os reuniria em volta do rádio - a televisão só invadiria as casas anos depois - enquanto as mulheres cuidavam da limpeza da cozinha e as crianças desfrutavam das alegrias de uma tarde no cinema. E que delícia voltar do cinema e encontrar a mesa posta para um lanche com todas aquelas coisas boas que minha mãe sabia preparar tão bem! A cada domingo um prato diferente... Bolo com chocolate quentinho, nas tardes de inverno, ou com bolinhos de chuva... O arroz-doce feito a moda de Portugal era um regalo!
As tardes de minha infância eram doces... Na verdade, eram adocicadas pela alegria daquela casa, pela doçura dos cuidados de minha mãe...
Hoje, um desses dias em que, ao abrir os olhos, depois de uma viagem carinhosamente feita pelo interior de minhas memórias, premida pela saudade de mim mesma, da menina que um dia fui, sequer tentei reprimir aquela lágrima que teimava em escorrer-me pelo rosto, simplesmente porque ela traduzia a doce saudade de um tempo vivido com amor...






