floquinhos

domingo, 5 de julho de 2009

Fernando Pessoa na sua tarde de domingo...


(Alvaro de Campos)


Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria.
Desde ontem a cidade mudou.


sábado, 4 de julho de 2009

O tempo e o vento...


"O tempo é como um barco a vela. Nos dias em que o vento sopra pela popa, o tempo anda depressa. Mas quando o tempo navega contra o vento, então as horas parecem semanas e os meses, anos."

(Bibiana, personagem de "O tempo e o Vento")

Érico Veríssimo

sexta-feira, 3 de julho de 2009

E já que hoje é dia de poesia... Mario Quintana

Foto: Calendário do Vaticano - 2009

Se eu fosse um padre

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado

- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas

ou das suas terríveis maldições...

Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,


Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!


Porque a poesia purifica a alma ...
a um belo poema - ainda que de Deus se aparte
-
um belo poema sempre leva a Deus!

Linda e amável borboletinha...

Em visita ao lindo e bem cuidado blog "Momentos Meus", da delicada amiga Isa e, a um gesto dela, essa linda borboletinha pousou no meu ombro. Minha amiga disse-me então que deveria traze-la comigo, fiquei muito feliz e ai está ela para enfeitar meu dia. Depois vou colocá-la com carinho no "O Livro dos Meus Selos", onde poderei visitá-la sempre que minha alma precisar de um alento, porque cada um dos selinhos que lá estão são alentos para minha alma, porque são gestos de carinho de meus amigos para comigo.

Obrigada, Isa!

Hoje é dia de poesia...


E na poesia de Thiago de Mello...


O animal da floresta

De madeira lilás (ninguém me crê)
se fez meu coração. Espécie escassa
de cedro, pela cor e porque abriga
em seu âmago a morte que o ameaça.
Madeira dói?, pergunta quem me vê
os braços verdes, os olhos cheios de asas.
Por mim responde a luz do amanhecer
que recobre de escamas esmaltadas
as águas densas que me deram raça
e cantam nas raízes do meu ser.
No crepúsculo estou da ribanceira
entre as estrelas e o chão que me abençoa
as nervuras.
Já não faz mal que doa
meu bravo coração de água e madeira.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

João, o jardineiro...


Há pessoas que parecem viver de bem com a vida. Pessoas que teriam tudo para reclamar e que, como exemplo de vida, estão sempre com um sorriso aberto no rosto quando nos falam, tem sempre um ar de paz no olhar.
Geralmente são pessoas simples, considerados muitas vezes pobres de espírito, mas que carregam em si uma enorme riqueza em forma de paz e amor ao próximo...
Daqui da janela da biblioteca de meu filho, posso ver o jardineiro cuidando das plantas, aparando a grama, podando arbustos, enfim cuidando com carinho de cada flor, de cada galhinho. E faz seu trabalho meticulosamente, com esmero, com alegria. Ouve-se o tempo todo seu assobiar canções tão simples como ele. Mora no próprio condomínio, num cantinho que lhe foi cedido, não tem família, ou pelo menos não vive com ela. Mulato, alto, desengonçado, de voz alta e estridente, bem quisto por todos e sempre se sabe quando está por perto porque não perde a oportunidade de uma prosa, ainda que de passagem ou porque há sempre um assobio caminhando pelo ar, marcando sua presença..
O nome dele? João... De que? Ah, acho que ninguém, ou quase ninguém, sabe... Apenas e simplesmente João, o jardineiro...

Manoel Bandeira - Poesia na manhã cinzenta


Vou-me embora pra Pasárgada...


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada