floquinhos

terça-feira, 5 de maio de 2009

Numa manhã tão azul...


Meu coração percorre distantes caminhos do tempo e numa esquina perdida encontra seu olhar, seu sorriso, sua saudade. Tanto tempo acalentando essas lembranças, essa doce saudade. que ficou guardada, escondida lá no mais profundo do meu ser.. Maravilhoso sentir que você voltou. E o que parecia tão distante, eaquecido, imerso entre as lembranças, ressuge forte, acalentando a alma, reabrindo esperanças, iluminando o resto de um caminhar que vinha triste, solitário, despertando em mim sonhos que já nem ousava sonhar...
Tempo... Tanto tempo... Éramos tão jovens, a vida mal começara. Que sabiamos nós da vida? Nada!... Tomamos rumos diferentes, vivemos nossos momentos, trilhamos nossos caminhos que pareciam seguir em paralelas, sem imaginar que num dia qualquer de um futuro que era distante, haveriam de se cruzar numa outra esquina do tempo, numa outra fase da vida. Uma fase mais madura, aonde os valores tem outra dimensão, outro significado. Uma fase aonde um simples caminhar de mãos dadas, um sentar lado a lado, um momento de ternura, preenchem a vida.
A manhã está tão linda... Azul, ensolarada... Mas ainda que estivesse cinza, chuvosa, fria, dentro de mim brilharia o sol... O sol de sua presença, o sol de um carinho renovado...

Dulce Costa
Na ensolarada manhã de cinco de maio de dois mil e nove.

DRUMMOND - Um pensamento na sua manhã...


Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.

Difícil é encontrar e refletir sobre seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

E é assim que perdemos pessoas especiais.


MEUS POETAS DO CORAÇAO - Cecília Meireles


É preciso não esquecer nada


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do
nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.


segunda-feira, 4 de maio de 2009

Fotos... Madrugada... Tantas lembranças...

(E o dia amanhece em Sampa)

Ontem, vencida pelo cansaço de um final de semana de “avó em tempo integral”, acabei indo mais cedo do que de costume para a cama e, como é natural em mim, a madrugada me pegou já acordada, vagando pela casa ao som do violino de Joshua Bell encantando minha alma...
Um tanto nostálgica, resolvi abrir uma caixa aonde guardo fotos (muito) antigas, minha caixa visual de recordações, não só para vê-las, mas também para tentar organizá-las de forma a colocá-las, todas, em arquivos no computador. Mas se o projeto era trabalhar com elas, à medida que foram sendo retiradas, uma a uma, da caixa, as lembranças que vinham com essas fotos foram se juntando em volta de mim, em bons e maus momentos, em saudades imensas, em carinho, em presenças muito queridas que foram ficando pelas paragens dos caminhos, em presenças que a vida colocou longe de mim, em presenças que se fazem ainda presentes em meus dias...

Ah, nesta minha mãe era ainda tão jovem e linda, com seus encantadores olhos verdes e seu ar de serenidade... Nesta outra meu pai todo garboso em sua farda... Vejo aqui meus tios reunidos num almoço de família - tão grande nossa família, tão alegre... Oh!... Meu irmão tão pequenino ainda... Sinto tanto a sua falta... Como era linda minha irmã, olhar altivo, parecia que nada no mundo poderia atingi-la, e, no entanto... Ah, como a vida pareceu ser-lhe cruel! Aqui a amiga inseparável de minha infância... Por onde andará? Esta outra amiga partiu tão cedo... Tenho tão boas lembranças dela, e na medida em que vou envelhecendo, sua ausência se faz mais sentida...
Aliás, todas as minhas ausências vão se fazendo mais sentidas na medida em que avanço por meus caminhos.
Antes, ocupada com a criação da família, preocupada com o bem estar deles, ou com meu trabalho, meu tempo todo distribuído entre mil ocupações, parecia que as ausências iam sendo absorvidas pelo tempo. Agora, tranquilamente percorrendo o outono de minha vida, com tempo maior para pensar, sonhar, recordar, quando resolvo voltar assim ao passado, num doce momento de rever velhas fotografias, é que percebo o quanto cada um deles ainda vive em mim, o quanto suas presenças foram importantes em cada um dos meus dias.
E entre lindas e amareladas fotos que mostram sorrisos, lágrimas contidas, alegria ou tristeza, descontração ou preocupação em fazer pose para uma imagem que se perpetuaria no papel - nem se davam conta disso, só queriam parecer bonitos - minha madrugada de lembranças foi mergulhando no dia que vai aos poucos surgindo lá fora.

Não montei arquivo nenhum, mas em compensação tive longas conversas com meus antigos, passeei no parque com minha irmã, dancei com meu pai, senti-me abrigada no colo de minha mãe, embalei meu irmão no meu colo, ouvi encantada meu tio cantar um tango de Gardel, tirei fotos com minhas amigas lá na rua antiga, visitei parentes queridos em outra cidade, e revi até meu primeiro e platônico amor de adolescente.

Foi uma linda madrugada!... Valeu cada minuto de sono perdido.

Dulce Costa

No amanhecer do dia quatro de maio do ano de dois mil e nove.

domingo, 3 de maio de 2009

Meu por-do-sol

(clique na imagem para amplia-la)

Meu por-do-sol estava tão lindo, visto do terraço lá de casa, que resolvi dividi-lo com vocês. Meu presente de fim de domingo para meus amigos.

Fernando Pessoa na tarde de domingo...


Quando te vi amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro.

A Poesia de Thiago de Mello, para o seu domingo

As Pontes são como Pássaros

Como nasce um vôo de pássaro
súbito e simples
(ninguém – talvez nem o próprio pássaro
- sabe jamais em que instante vai se erguer),
nascem também as pontes do coração
entre as criaturas humanas.
Nem sabem que vão nascer.

Pontes que são como os vôos
dos grandes pássaros belos,
são como os vôos das águias,
que certeiras e alto voam,
Perenes de sortilégios,
São como o vôo sereno
do condor pastando alturas

Também são como o dos suaves passarinhos,
em peleja pelo pão de cada dia;
vôo alegre e cristalino das asas amanhecendo,
Antes de tudo essas pontes
são como os vôos que chegam.
Chegam sempre.

Ainda que algumas se façam tardas,
jamais se fazem retardatárias,
Não sofrem de tempo as coisas
nascidas do coração.

Nascem as pontes e se alçam,
Certeiras de seus destinos
Como as águias de seus rumos
- e se vão, levando alvuras,
aconchegos, mansidões:
pontes de amor sobre um mundo
já quase alheio a milagres,
como um vôo de alvas asas
contra o azul já anoitecendo.

Por mais que muitos desabem
(acaso por desamadas),
embora tantas se calem
(talvez porque recusadas)
mesmo que muitas se percam
depois de perdido o pouso,
- nenhuma ponte de amor
se estende jamais em vão.
Pois algo sempre perdura
de tudo a que ela deu rumo:
seja um resto de recado,
um fragmento de canção
leve lembrança de alvura,
ou sejas apenas a sombra
de uma ternura. Pois algo
das pontes – feitas de infância
e de amor – sempre perdura.

Como contra o sol, o vôo
de um pássaro cuja sombra
se projeta e vai cavando,
bem de suave, um rastro eterno,
no manso verde do mar.