floquinhos

segunda-feira, 23 de março de 2009

UM SELO MUITO ESPECIAL


Preciso agradecer ao Carlos Barbosa de Oliveira, do excelente blog Crônicas do Rochecho, pela gentileza do selinho acima. Como se diz em Portugal, um miminho... Obrigada Carlos, com essa sua gentileza, você deixou o "Em Prosa e Verso" todo prosa, hoje.

domingo, 22 de março de 2009

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (10)


NAS MARGENS DO RIO TIETE

O Rio Tietê já foi rota de bandeirantes e é ate hoje, lá pelo interior do estado de São Paulo, em alguns trechos, um rio navegável mas, quem o vê tão poluído aqui na Capital, sequer supõe o quanto era bonito, cheio de vida, até algumas décadas atrás.
Quem, ao trafegar pelas suas vias marginais, olhando para aquelas águas barrentas, sujas, cheias de óleo e de detritos, não se surpreenderia ao ouvir histórias de pescarias passadas às suas margens? Quando digo a meus netos que já pesquei no Rio Tietê eles me olham incrédulos, como se eu lhes estivesse falando de um conto de Fadas, no entanto tenho em minha memória tantas lembranças...
Meu pai e meus tios, por terem crescido numa fazenda de café, sempre mantiveram o gosto pelas coisas do campo, entre elas a pesca e não era raro vê-los sair nas tardes de sábado rumo ao Tietê, lá no trecho da Vila Guilherme, para algumas horas descontraídas em suas margens, de onde voltavam sempre com alguns lambaris, traíras, bagres, que faziam a alegria da garotada no almoço do dia seguinte.
Não sei bem porque mas o fato é que um dia meu pai resolveu levar minha irmã e eu para uma pescaria o que nos deixou empolgadas. Minha irmã, Elza, era uma adolescente muito bonita, beleza que a acompanhou por toda sua curta vida, enquanto que eu, quatro anos mais nova, era ainda uma garotinha desengonçada, um tanto arredia; assim fazíamos contraste naquela tarde tão diferente que meu pai nos proporcionava, ela já com um certo “glamour”, fazendo do simples chapéu de palha que lhe cobria os cacheados cabelos um elemento a mais para realçar a beleza de seu rosto, enquanto que meu chapeuzinho só servia mesmo era para me proteger do sol... E lá fomos nós, levando nas mãos um cestinho onde deveríamos colocar os peixes que conseguíssemos pegar, meu pai carregando as varas, as iscas, anzóis, enfim, toda a parafernália necessária. Descemos a Rua Piratininga e fomos ate a Rangel Pestana onde tomamos o bonde “Vila Maria”, que nos levaria até as proximidades do local que meu pai, com sua experiência de freqüentador assíduo, achava ser o melhor.
Quando chegamos já havia algumas pessoas pescando. Nós nos acomodamos também e, ouvindo atenciosamente as instruções de meu pai, senti-me como se já fosse uma profissional da pesca, tal o entusiasmo que me invadia. Já minha irmã tinha suas atenções voltadas mais para a margem do que para o rio, uma vez que notara, e fora notada, ao chegar, um rapaz que pacientemente deixava-se ficar a espera de que um peixe fisgasse sua isca... Meu pai, zeloso, percebeu logo a troca de olhares e colocou-se em posição de vigia... A sorte de principiante me acompanhava e, um após outro, fui colocando peixes na minha cestinha, enquanto que minha irmã não conseguia nada além dos olhares furtivos do jovem pescador. Num determinado momento, ela sentiu um puxão na linha e gritou por meu pai, para que viesse ajuda-la mas nesse momento ele estava justamente retirando mais um peixinho do meu anzol e viu, contrariado, o rapaz levantar-se dum pulo e correr para o lada de minha irmã, querendo aproveitar a chance para uma aproximação, achando que meu pai baixara a guarda, enquanto dizia:
- Pode estar, senhor, eu ajudo a moça...
Ao que meu pai, pondo-se em pé, rosto contraído, bradou:
- Alto lá rapaz, das minhas filhas cuido eu! Ponha-se ao largo ou eu o jogo no rio...”
E era tal a força da voz de autoridade que emanava dele que o rapaz estancou, lívido, olhos arregalados, balbuciando um pedido de desculpas pela intromissão, enquanto meu pai, com gestos rápidos retirava o peixe do anzol mandando que juntássemos nossas coisas porque a pescaria estava acabada.
Atitude semelhante vi-o tomar para me “defender”, anos mais tarde, quando voltávamos de umas férias em um rancho de pesca que ele mantinha em Piaçagüera. Estávamos no trem de volta para São Paulo, ele e minha mãe sentados em um dos bancos e, por estar lotado, meu irmãozinho e eu na parte posterior, em pé, junto a outras pessoas, quando dei com dois enigmáticos olhos cinzas postos em mim. Não saberia dizer se o dono daquele olhar era bonito ou feio, só me lembro mesmo é da cor daqueles olhos tão diferentes. E, claro, como acontece sempre entre jovens, houve um começo de conversa. Mas só o começo porque antes mesmo de responder ao que o rapaz dissera, meu pai estava já do meu lado dizendo:
- Eu fico aqui com seu irmão. Você vá se sentar ao lado de sua mãe que é muito mais seguro.
Meu pai tão querido, com que saudades eu me lembro destas histórias de pescarias!...

(Do livro "Encontro com a menina que eu fui")

UM PENSAMENTO (4)

CLARICE LISPECTOR

"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

sábado, 21 de março de 2009

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (9)


UM ANIVERSARIO INESQUECIVEL

Quando meu irmão nasceu eu estava completando 10 anos e uma diferença de idade tão grande entre um filho e outro não deixa de ter seus inconvenientes, principalmente para a criança maior que sendo até aquele momento caçula, passa então a ser, como se costuma dizer brincando, em minha família, “sanduíche” – aquele recheinho insosso que fica pressionado entre duas fatias de pão... Mas ele sempre foi muito lindo e como todos na casa, perdi-me de amores pelo Walter, que cresceu apesar de todo carinho, um garoto tímido, de olhar triste, sempre um pouco distante.
Meu pai esperara quatorze anos por um filho e nunca escondera sua decepção por eu ter nascido mulher. Assim, não cabia em si de contentamento e, quando da chegada da data do primeiro aniversário de meu irmãozinho, resolveu comemorar com uma festa como nunca houvera antes em nossa casa. Mais que isso, resolveu comemorar os dois aniversários, já que o meu seria seis dias depois. E ao ver os preparativos, fui ficando cada dia mais animada e feliz imaginando o bolo, os doces, a presença das pessoas que eu queria bem... Imagine que até música ao vivo teria! Um dos amigos de meu pai era músico e tinha um filho que tocava acordeom – que por sinal é hoje presença constante na tv, mas que à época ainda andava de calças curtas – e que, convidado, não se fez de rogado e levou sua arte e sua alegria até nossa casa naquela noite enchendo de música o velho casarão. Era lindo demais ver pai e filho unidos num mesmo amor pela música, sorrisos a iluminar-lhes o rosto ao ver a alegria de todos nós...
Bem, todos nós não seria bem o termo porque meu pequeno coração estava bem tristinho, e tinha que fazer uma enorme força para não chorar.
Quando comecei a sonhar com aquela festa, ficava imaginando doces, bolo, música alegria, familiares queridos, claro que sim, mas imaginava também os presentes que receberia. Afinal, com tantos convidados, certamente receberia vários presentes e uma expectativa foi-se formando dentro de mim. Imaginava bonecas, roupas, alguma pulseirinha ou algum anelzinho, objetos que agradam sempre a uma menina na pré-adolescência... E tudo não estava exatamente como o esperado, o sonhado? Não! Tudo não!... Pelo menos para mim, não estava mesmo... Os convidados iam chegando, um a um, trazendo sempre nas mãos uma lembrancinha para... o menino!... E a cada novo convidado a menininha pensava: “não faz mal, o próximo vai trazer uma lembrancinha pra mim, nem que seja um lápis... afinal, eu também sou aniversariante...” – e o próximo chegava com uma lembrancinha sim, mas para o menino... E a música, os doces, o bolo, tudo enfim foi ficando sem cor, sem gosto, uma tristeza só...
Lá pelas nove da noite, já frustradas todas as expectativas, vi chegar minha tia Izabel, uma das irmãs de meu pai, mulher lutadora, de olhar firme e sorriso doce, voz mansa que, em companhia do marido, Ítalo, e dos cinco filhos (ainda nasceriam mais dois) chegava com alarido e alegria, sobraçando um enorme pacote, um presente para o Waltinho, que era seu afilhado. Coração apertadinho, lágrimas teimosas a querer fugir dos olhos, fui me esgueirando em direção ao meu quarto quando ela me chamou:
- Hei, Doçura, onde é que você vai? Não dá um beijo na tia? Vem cá minha lindeza...
Corri para abraçá-la e já ia me afastando quando ela me segurou pela mão e me entregou um lindo pacote enfeitado por um laçarote, dizendo:
- Não quer seu presente de aniversário?”“.
Rosto iluminado, sorriso aberto, abracei minha tia com gratidão. Afinal, alguém se importara comigo, se lembrara de que eu existia, minha tia salvara minha noite. Corri para o meu quarto para abrir o pacote. Era uma bolsinha vermelha, retangular, que à luz do tempo parece-me mais um estojo escolar e, dentro dele, uma nota de cinco cruzeiros (a moeda válida na época). Intrigada com meu comportamento, minha tia veio atrás de mim e, entreabrindo a porta do quarto perguntou:
- Está tudo bem com você, minha lindeza? Está chorando? Não gostou do presente?
Abracei-a com força e entre lágrimas só consegui responder:
- Gostei demais tia! Foi o presente mais bonito que ganhei na minha vida...
Passaram-se tanto e tantos aniversários, ganhei tantos e tantos presentes, singelos uns, valiosos outros, mas nenhum, nenhum mesmo capaz de igualar-se em valor ou beleza àquela simples bolsinha vermelha oferecida com muito carinho por minha doce tia e recebida por mim com tanto amor, no meu décimo-primeiro aniversário.

(Do livro "Encontro com a menina que eu fui")

UMA ROSA, UMAS FOTOS...

(A linda rosa de primavera enfeita a ensolarada manhã deste primeiro sábado de outono)

A casa está tranquila, e aproveito para selecionar alguma fotos antigas para meus arquivos. E enquanto o faço, viajo pelo tempo e espaço, revejo pessoas queridas, relembro fatos e momentos.
Numa foto em que minha mãe está sentada nos degraus da escada que nos levava da cozinha ao terraço de serviço, no casarão aonde morávamos, ampara meu irmão, ainda pequeno, que tenta subir. Há tanta doçura no olhar de minha mãe que me comovo. E fico lembrando dos caminhos trilhados por meu querido irmão, que foram tão curtos... Pareciam tão auspiciosos, tudo indicava que o conduziriam a patamares invejáveis, mas a vida, o destino, sei lá, determinaram o contrário.
Passo a outra foto antes que a tristeza me domine. E a outra é uma foto de um momento lindo, um passeio com minha irmã, minha prima e mais duas amigas aos jardins do Museu do Ipiranga. Eu tão menina, minha irmã já moça, sempre tão linda... saudades... Uma das fotos, muito engraçada, mostra minha irmã sentada sobre o gramado, rindo muito, e se levantarmos os olhos para a ponte sobre o riacho que está atrás dela, vamos ver o motivo do riso... quatro rapazes, debruçados sobre a mureta da ponte, lá no alto, completamente fascinados, cotovelos sobre essa mureta, mãos apoiando queixos, sorrisos "bobos" nos rostos, todos encantados com a mulher sentada ali no gramado... Era deles que ela ria... E fico pensando que a vida tambem não foi generosa com minha linda irmã...
Por isso gosto tanto de fotografias. Elas aprisionam o momento, trazem o tempo passado até nós, renovam nossas emoções, devolvem-nos, ainda que por segundos, pessoas queridas, lugares que nos encantaram.


sexta-feira, 20 de março de 2009

MEU MOMENTO DE POESIA


FLORBELA ESPANCA


AONDE?...

Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...
O eco ao pé de mim segreda... desgraçada...
E só a voz do eco, irônica, responde!

Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantante como um rio banhado de luar!

Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde...

Em gritos a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (8)


O CINEMA IDEAL

Meu filho telefonou lá pra casa perguntando se queríamos ir com ele e a Marta ao cinema, para ver O Gladiador. Estavam indo a um dos cinemas do Shopping Vila Lobos, que eu ainda não conhecia (nem o shopping, quanto mais o cinema!), o filme parecia bom, o que tornava o convite irrecusável, além da companhia, claro.
Ao entrarmos no hall, eles foram comprar pipocas e refrigerantes, o que já me deixou surpresa, surpresa essa que ia aumentando na medida em que percebia o tamanho do pacote de pipocas e do copo de refrigerante, que todo mundo comprava, e ainda mais: as poltronas da sala de exibição tinham até um lugar para o encaixe do copo! Guardadas as diferenças do conforto, era como se estivesse de novo num cinema de minha infância, no Cine Ideal, lá na Rua Piratininga, numa daquelas inesquecíveis tardes de domingo, quando levávamos até lanche para enfrentar a alegre maratona de filmes.
Ah, as tardes de domingo da minha infância! Depois de um almoço sempre especial, era aquela correria para chegar cedo ao cinema, afinal, o bom era sentar bem na frente, para ver o filme bem de perto, torcer pelo mocinho e odiar o bandido do seriado, rir com os desenhos animados que abriam a seção, suspirar pelo galã do filme principal. Primeiro vinha o jornal da semana – quem não se lembra do Primo Carbonari, do Jean Manzon? - depois os desenhos animados; aí entrava um filme que geralmente era de má qualidade mas ninguém se importava com isso porque, após um intervalo de 15 minutos que aproveitávamos para ir ao “toillet” ou então para comprar balas, vinha o melhor da festa: o seriado, seguido pelo filme principal, aquele que arrancava lágrimas das meninas maiores, já com as cabecinhas cheias de sonhos e provocava caçoada por parte dos garotos, sempre muito engraçadinhos na pré-adolescência e na adolescência propriamente dita, estejamos nos anos 50, 60, ou em 2000. A alma humana parece ser imutável...
As segundas à noite havia a “soirée” das moças. Já era uma tradição ir ao Ideal nas noites de Segunda-feira. Mulheres pagavam só meia entrada e, por isso mesmo, as senhoras que nunca podiam sair sozinhas de casa, sob pena de ficarem “faladas”, aproveitavam a desculpa de levar as filhas e lá se iam todas emperequetadas, de braços dados, para molhar seus bordados lencinhos com lágrimas que derramavam pela heroína que muitas vezes personificava seus sonhos já desfeitos, enquanto que as moças iam exatamente perseguindo o sonho de encontrar entre os rapazes que lotavam metade do cinema, seu príncipe encantado. Rapazes na soirée das moças? Claro que sim! E eles iam perder uma chance dessas? Tanta mulher junta? Pois sim!
Lá estavam eles, os galãs do bairro, engravatados, como era obrigatório na época, cabelos devidamente glostorados, os mais “refinados” recendendo a English Lavander de Atkinsons... Irresistíveis! E a elegância das senhoritas? Ah, era um esmero!... Sapatos de saltos altos, sempre combinando com a bolsa e, claro, com a roupa, que era de “sair”, como se costumava dizer. Os chapéus femininos já estavam em desuso mas as meias de nylon eram obrigatórias (e ainda com aquela risca da costura que devia estar reta, exatamente no meio da perna, uma elegância!...) e luvas, sim, luvas... Eu mesma tinha vários pares, e as usaria anos depois, até para ir e vir do trabalho, não calçadas mas seguras junto à bolsa, que geralmente era em forma de carteira...
Parafraseando Caetano, a “deselegância discreta” daquelas meninas era algo até bonito de se notar. Percebia-se a preocupação com os detalhes, o cuidado com a aparência. Afinal, ir ao cinema era um programão para os padrões sociais e econômicos dos habitantes dos bairros operários que sequer poderiam sonhar com um teatro. Quer dizer, sonhar, sonhavam...
Eram tão simples os sonhos de então! Eram tão aparentemente felizes aquelas pessoas em sua simplicidade, em seus parcos recursos! Precisavam de tão pouco para se sentir felizes!
Ao caminhar pelas ruas de minha infância ia captando sons e vozes que enchiam as tardes. Mulheres que cantavam enquanto cuidavam dos afazeres domésticos, homens que assobiavam enquanto iam e vinham do trabalho, músicas que vinham dos rádios ligados em quase todas as casas, gritos e risos de crianças que, felizes e soltas corriam e brincavam pelas ruas... Sons e lembranças de um tempo feliz que não volta mais... Sons e lembranças que tornaram a invadir meu coração, arrancados lá do fundinho do meu baú de memórias por um pacotão de pipocas e um enorme copo de refrigerante comprados num cinema de um sofisticado shopping center, numa tarde de domingo.


(Do livro "Encontro com a menina que eu fui")