floquinhos

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Na solidão de Cecília Meireles


Solidão


Imensas noites de inverno
com frias montanhas mudas,
e o som negro mais eterno,
mais terrível, mais profundo.


Este rugido das águas
e essa tristeza sem forma
sobe rochas, desce fráguas,
vem para o mundo e retorna.


E a névoa desmancha os astros,
e o vento gira as areias:
nem pelo chão ficou rastros
nem, pelo silêncio, estrelas.


A noite fecha seus lábios
- terra e céu - guardando o nome.
E os seus longos sonhos sábios
geram a vida dos homens.


Geram os olhos incertos,
por onde descem os rios
que andam nos campos abertos
da claridade do dia.


(Cecília Meireles)

terça-feira, 24 de abril de 2012

Os aromas e os sabores do mundo...

(Um pedacinho do México, sem precisar atravessar fronteiras)

Viver numa cidade (muito) grande tem suas desvantagens, sim. Afinal você vive cercado de violência, sentindo grande insegurança, a vida é corrida, o trânsito caótico, as distâncias entre um ponto e outro são enormes, o que consome grande parte de seu dia se precisar vencê-las, a vida é mais cara, e uma série de outras coisas que mexem com seu bem estar, chegando mesmo a afetar seu sistema nervoso. Todo mundo sabe que viver em cidades como São Paulo e Rio não é lá muito fácil, sob esse aspecto. Mas cidades assim apresentam vantagens também, e muitas. Tantas que chega a compensar e a fazer com que as pessoas que nelas vivem não queiram deixá-las, na maioria das vezes.
Tais cidades oferecem a seus moradores, em contrapartida, o que há de melhor e mais avançado em ciência, tecnologia, cultura, lazer, com seus centros de pesquisas, centros médicos de primeira linha, as melhores escolas, desde o fundamental até ao universitário, museus, teatros, galerias de arte, cinemas, bares e restaurantes para todos os gostos e bolsos, e ao Rio acrescente-se ainda aquele cenário maravilhoso, aquelas praias de encantar o mundo. 
São Paulo tem sido conhecida como a capital mundial da gastronomia, pois você encontra nela todos os sabores do mundo, em forma de restaurantes típicos e temáticos. E um dos prazeres do paulistano, quando na cidade, é mesmo jantar em um bom restaurante, saborear uma intensa e bem dosada variedade de aromas. Se tiver curiosidade em conhecer um restaurante refinado ou uma cantina simples, é só procurar no guia gastronômico. O mesmo com bares e botecos, cada qual com seu público. 
Meu filho tem na gastronomia seu hobby, sua maneira de desanuviar os estresses de uma profissão desgastante, embora muitas vezes bem gratificante, e quando não está na cozinha aqui de casa entre panelas e "otras cositas mas", gosta de ir a restaurantes para descobrir novos sabores, ou simplesmente saborear a boa culinária, brasileira ou internacional.
Assim, no sábado fomos jantar num lindo restaurante marroquino, aqui mesmo na Vila Madalena. Desde a entrada, já nos sentimos em outro mundo, em outra cultura. Suas paredes forradas com panos coloridos, dando a ideia de uma tenda, com uma iluminação linda, multicolorida pelos lustres e arandelas de encher os olhos. A música no ar ajudava a transportar-nos para as longínquas areias do deserto,  a imaginar odaliscas ondulando sua sensualidade. Odaliscas que, a certo momento, adentram o salão para encantar os clientes com sua dança, com sua beleza. Uma viagem ao Marrocos, sem sair do bairro em que moramos...
E ontem, escolhemos um lindo restaurante mexicano. Entre uma decoração colorida e alegre, com bandeirolas, sombremos, quadros, num ambiente rústico, ao som dos sucessos que levaram o México a todos os cantos do mundo pela voz de seus cantores, no século passado, vozes que enchiam o ar daquela aconchegante sala, entre tacos e guacamoles, potes de pimentas, e a conhecida simpatia mexicana. o jantar transcorreu numa explosão de sabores fortes mas deliciosos.
Dois países diferentes, duas gastronomias diferentes, mas em ambos os restaurante, a mesma cordialidade, a mesma simpatia, a mesma explosão de aromas e sabores, a mesma sensação de prazer ao desfrutar da cultura de outros povos, sem nem mesmo precisar sair de nossa cidade...

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O melhor de um domingo cinzento...


E num domingo cinzento como o de ontem, tem coisa melhor para se fazer do que gastar um tempo numa livraria? É bom demais! Por isso, lá pela tardinha, meu filho e minha nora, que tinham passado o dia aqui em casa, tornaram irrecusável o convite para irmos todos até a Livraria Cultura lá no Shopping Villa Lobos.
E nem foi preciso andar muito entre suas imensas dependências para encontrar mais um livro de Drummond, uma nova edição de um livro do Eça, um livro que ainda não tinha do Mário de Andrade, uma biografia re-editada de Graciliano Ramos escrita por seu filho e um romance de um autor português que não conhecia, José Luis Peixoto... Que venham pois as tardes nevoentas de quase inverno; já tenho como enfrentá-las (ou quase);


E do livro de Drummond - As impurezas do branco - escolhi um poema para vocês, queridos amigos e leitores do Prosa:

AMOR E SEU TEMPO


Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.


É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado, 
que, decifrado, nada mais existe


valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.


Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.


(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 22 de abril de 2012

A chuva, o tédio, a alma...


O domingo chegou enfarruscado, cinzento, molhado, e a alma, hoje, acordou em tédio. Sem saber como estava a vida lá fora, abri a janela na esperança de ver um céu azul, uma cidade preguiçosa, porque é domingo, mas toda banhada de luz. Porque não há tédio que resista a uma linda, ensolarada manhã de domingo... Mas, como já disse, o domingo também era só tédio. Aí lembrei-me de uns versos de Quintana, que dizem:

"No céu é sempre domingo. E a gente não tem outra coisa a fazer senão ouvir os chatos. E lá é ainda pior que aqui, pois se trata dos chatos de todas as épocas do mundo..."


E, diante da irreverência do Poeta, lá se foi o meu tédio, levado pelo vento frio que, entrando pela janela, agitou a cortina suavemente, num gracioso movimento que enfeitou a vida.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Hoje é dia de Drummond...

Digam-me, meus amigos, quem além de Drummond transformaria em versos o prosáico (embora maravilhoso) prazer de chupar uma laranja?...



CHUPAR LARANJA


A laranja, prazer dourado.
A laranja, prazer redondo.
A laranja, prazer fechado.
A laranja, prazer da faca.


Ou canivete. Cada golpe
anuncia: já se aproxima
o íntimo prazer da laranja,
que não se dá sem sacrifício.


A laranja não se espedace,
para mais intenso prazer.
A laranja fique redonda, 
mesmo sem casca: esfera nívea.


Então corte rápido a lâmina
um dos polos; a mão aperte,
e a boca sorverá, sensual, 
a líquida alma da laranja.


Quem foi que, anônimo, inventou
o prazer de chupar laranja
em forma global de mamucha?
Gerações antigas sorriem
neste mestrado de volúpia.


(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Nos doces caminhos da Poesia...



Hoje, no Prosa, a  alma apaixonada de Florbela Espanca, uma mulher intensa, toda paixão, toda amor....


Meu amor


De ti, somente um nome sei, Amor.
É pouco, é muito pouco e é bastante
Para que esta paixão doida e constante
Dia após dia cresça com vigor!


Como de um sonho vago e sem fervor
Nasce assim uma paixão tão inquietante!
Meu doido coração, triste e amante
Como tu busca o ideal na dor!


Isto era só quimera, fantasia,
Mágoa de sonho que se esvai num dia,
Perfume leve dum rosal do céu...


Paixão ardente, louca, isto é agora,
Vulcão que vai crescendo hora por hora...
O meu amor, que imenso amor o meu!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Então... O Prosa é só poesia...



E poesia de Fernando Pessoa, para adoçar sua tarde...


Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê, quando se abre a janela.