floquinhos

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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O lirismo de Quintana...


Poeminha dos setenta anos


As tantas horas vividas,
lindas horas, minhas viúvas,
dizem, de riso perdidas:
"Tira o cavalo da chuva!"
Da chuva tirei-o, pois,
e, como o bom senso manda,
ficamos a sós, os dois
vendo a chuva da varanda.
"Ai, cavalo, ai, cavalinho,
não me comas essa flor
que abriu nesse vasinho
onde estava escrito AMOR"!


(Mario Quintana)

Como os leitores a amigos do Prosa podem ver, pelo poema acima, nosso terno Quintana, aos setenta anos, era puro lirismo...

sábado, 28 de janeiro de 2012

Uma música que seja;;;



Uma música que seja...

... Como os mais belos harmônicos da natureza. Uma música que seja como o som do vento na cordoalha dos navios, aumentado gradativamente de tom até atingir aquele em que se cria uma nota ascendente para o infinito. Uma música que comece sem começo e termine sem fim.Uma música que seja como o som do vento numa cortante harpa plantada no deserto. Uma música que seja como a nota lancinante deixada no ar por um pássaro que morre. Uma musica que seja como o som dos altos ramos das grandes árvores vergastadas pelos temporais. Uma música que seja como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova. Uma música que seja como o voo de uma gaivota numa aurora de novos sons.

(Vinícius de Moraes)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Cecília Meireles, suavíssima...

(No crepúsculo de São Paulo, sem o cantar dos galos, os sonhos também vão chegando, frágeis, leves como espuma...)

Suavíssima


Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente...


Os galos cantam, no crepúsculo dormente
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma...


Fica-se longe, quase morta, como ausente...
Sem ter certeza de ninguém... de coisa alguma...
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,


De um mal sem dor, que não se saiba, nem resuma...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente...


E os galos cantam, no crepúsculo dormente...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente...


Os galos cantam no crepúsculo dormente...
Tão para lá... No fim da tarde... Além da bruma...


E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem frágeis, leves como espuma...


Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma...
E os galos cantam no crepúsculo dormente...


(Cecília Meireles)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

E enquanto a chuva cai lá fora...


... nesta sexta-feira feita de nostalgia, entre tantas lembranças boas e más, nada como a companhia de um poeta para nos aquietar a alma. E quem melhor que nosso Poetinha? Ele cantou o amor como ninguém, ele cantou o amigo, como poucos... 


Soneto do amigo


Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retalhações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.


É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contém o olhar amigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.


Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.


O amigo, um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica.


(Vinícius de Moraes)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Da perfeição da vida...

 

Por que prender a vida em conceitos e normas?
O Belo e o Feio... o Bem e o Mal... Dor e Prazer...
Tudo, afinal, são formas
E não degraus do ser!

(Mario Quintana)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A magia de Mario Quintana


Mundo


E eis que naquele dia a folhinha marcava uma data em caracteres desconhecidos,
Uma data ilegível e maravilhosa.
Quem viria bater à minha porta?
Ai, agora era um outro dançar, outros os sonhos e incertezas,
Outro amar sob estranhos zodíacos...
Outro...
E o terror de construir mitologias novas!


(Mario Quintana)

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

As coisas mais simples...


Belo Belo


Belo belo belo.
Tenho tudo quanto quero


Tenho o fogo de constelações extintas há milênios
E o risco brevíssimo - que foi? passou - de tantas estrelas cadentes
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem e dia a dentro
Continuo a possuir o segredo da grande noite.


Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.


Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra nos dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis;
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.


(Manuel Bandeira)

sábado, 22 de outubro de 2011

Serenata ao amanhecer...


Serenata


Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça;
que me conforme em ser sozinha
Há uma doce luz no silêncio, e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo.


(Cecilia Meireles)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Assim é a vida...



Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre. Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.

(Carlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

É Outono...


Chanson d'automne


Les sanglos long
Des violons 
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone


Tout suffocant
Et bleme quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
E je pleure.


Et je m'envais 
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà
Pareil à la
Feuille morte.


(Paul Verlaine)

sábado, 17 de setembro de 2011

E porque hoje é sábado...


A doce poesia de Mario Quintana, um dos Poetas do Meu Coração...


Canção de Outono

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
de carícia a contrapelo...

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma...
mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte alguma!

Mario Quintana)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Sempre Fernando Pessoa...


Eu, eu mesmo...

Eu, eu mesmo... 
    Eu, cheio de todos os cansaços  
    Quantos o mundo pode dar. — 
    Eu... 
    Afinal tudo, porque tudo é eu, 
    E até as estrelas, ao que parece, 
    Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças... 
    Que crianças não sei... 
    Eu... 
    Imperfeito?  Incógnito?  Divino? 
    Não sei... 
    Eu... 
    Tive um passado?  Sem dúvida... 
    Tenho um presente?  Sem dúvida... 
    Terei um futuro?  Sem dúvida... 
    Ainda que pare de aqui a pouco... 
    Mas eu, eu... 
    Eu sou eu, 
    Eu fico eu, 
    Eu...  



(Alvaro de Campos)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Nesta segunda-feira ensolarada, poesia...


"Não ser amado é falta de sorte, mas não amar é a própria infelicidade."

(Albert Camus)

Camus estava coberto de razão! Não há nada que torne uma pessoa mais aberta para a vida do que o "amar". Amar em todo e em qualquer sentido, sempre torna uma pessoa melhor. E se alguem se torna pior quando diz amar, acredite, não é amor o que preenche a alma dessa pessoa. Mestre Drummond já dizia que "nosso destino é o amor sem conta". Ele sabia muito bem o que dizia quando deu ao mundo e aos nossos corações este poema:

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
.
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
.
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

E como a chuva continue...

E como a cidade segue encharcada, o céu coberto de nuvens que desaguam sobre a terra, a chuva toca a alma, nada melhor que a poesia para enternecer e sossegar o espírito. E quando se fala em poesia, nada melhor que Fernando Pessoa.




Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva 
Não faz ruído senão com sossego. 
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva 
Do que não sabe, o sentimento é cego. 
Chove. Meu ser (quem sou) renego... 

Tão calma é a chuva que se solta no ar 
(Nem parece de nuvens) que parece 
Que não é chuva, mas um sussurrar 
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece. 
Chove. Nada apetece... 

Não paira vento, não há céu que eu sinta. 
Chove longínqua e indistintamente, 
Como uma coisa certa que nos minta, 
Como um grande desejo que nos mente. 
Chove. Nada em mim sente... 


(Fernando Pessoa - "Cancioneiro")

domingo, 21 de agosto de 2011

Começamos a semana com Poesia...


Quem ama inventa


Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava,
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revoo sobre a ruinaria.
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente.
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes o bem que faz a gente
Haver sonhado e ter vivido o sonho!


(Mario Quintana)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Na manhã de chuva, Fernando Pessoa...



Apontamento


A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. 

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. 
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio? 
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. 
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária. 
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.


(Alvaro de Campos)


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O dia começa com poesia...



Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez... 



(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Um passarinho muito curioso...


O visitante de hoje...

E estava eu tranquilamente sentada em meu quarto, lendo um livro, ou melhor, relendo, quando a gata da casa entrou numa carreira e parou diante da janela. Ergui meus olhos do livro e dei com um passarinho muito curioso pousado sobre o peitoril, olhando para dentro. E a gata, "enlouquecida", começou a tentar alcançá-lo, aos pulos, o que o assustou, claro. E lá se foram eles (eram dois ou três) para a ponta do telhado, ciscar na calha. A gata acalmou-se e foi para o corredor. Pouco depois lá estava o passarito, de novo, espiando para dentro do quarto. Desta vez consegui captar sua cabecinha curiosa, antes que a Baby (a gata) voltasse as suas infrutíferas investidas contra o vidro da janela. Para a tranquilidade da pequenina ave, achei melhor mandar a gata para fora do quarto. Mas o visitante já havia se cansado da brincadeira e abrindo as asas partiu para outras janelas mais interessantes...

Que bichinho mais curioso!...

A visita do pequeno pássaro trouxe-me a memória este versinho lindo do nosso Poetinha...


A um passarinho

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.
 
Deixa-te de histórias
Some-te daqui!

(Vinicius de Moraes)

domingo, 17 de julho de 2011

O sol atravessando a vidraça...



O sol atravessa a vidraça e pousa dourados raios sobre a cama ainda desfeita, enchendo o quarto de luz. Meus olhos atravessam a vidraça e pousam sobre o verde das árvores, em busca de paz...
É que, hoje, a alma acordou inquieta, pedindo colo, amargando saudades.
E quando a alma dança, inquieta, ao som de eternas saudades, mergulho inteira na sensibilidade de meus poetas do coração...


Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
 
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
 
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinicius de Moraes)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Numa doce tarde de verão...



... Para vocês, Mario Quitana e uma rosa. 


"Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...
E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém
também pensa em mim quando fecha os olhos,
que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas
renúncias e loucuras, alguém me valoriza
pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo,
que abusa demais dos bons sentimentos
que a vida proporciona,
que dê valor ao que realmente importa,
que é meu sentimento...e não brinque com ele."