floquinhos

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Flores para enfeitar a manhã...


O dia amanheceu lindo, o sol esparramando-se por sobre a cidade, mas uma aragem fresca, indicando que aquele calorzão ainda não se instalou por aqui. Estava tão agradável que fomos tomar o café da manhã na parte de fora da casa. 

(Um dragão feito de flores, o predileto do Alexander)

Depois do café, fomos levar os meninos para a escola de verão, onde passam do dia entre atividades como natação, jogos, aprendizado de alguns esportes como arco e flecha, uma maneira de ocupar os kids com coisas prazerosas. 


E, na volta, demos uma paradinha na loja de flores para encantarmos os olhos com tanta cor e tanta beleza. Quase sempre fica impossível sair de lá sem ter comprado uma muda ou um vaso de plantas para o jardim ou para a área.



Aqui e ali fui captando algumas delas para enfeitar o Prosa e alegre os olhos dos amigos que por aqui passarem...



terça-feira, 28 de junho de 2011

Numa manhã de verão...

E nesta paz, fazemos nossas refeições, ao ar livre


Nossa querida amiga Pitanga Doce deu uma passadinha por aqui hoje cedo e fez um comentário sobre o inverno no Brasil, principalmente no sul e fui dar uma olhadinha nos jornais online para saber a quantas andam as temperaturas por lá. Nossa!... Escapei por pouco da geladeira que anda reinando ao sul/sudeste das terras de Cabral!... Haja lã para aquecer tanto frio!


O vizinho da casa de frente apara a grama, enquanto a manhã ainda está fresca...


Aqui já começa a esquentar, as chuvas deram uma trégua, o sol anda se espalhando pelos gramados, casas e árvores do bosque, o canto dos pássaros já nos acorda ao clarear do dia, a criançada já anda aproveitando as atividades de verão, enfim, a estação começa a assumir sua própria cara.
Então, vou mandar um pouquinho deste momento-verão para alegrar pelo menos os olhos dos amigos e leitores do Prosa lá da região fria do nosso Brasil. Vamos lá, amigos, venham passear comigo pela ensolarada Winchester, nesta manhã que ainda tem um certo frescor de final de primavera...

 O Céu é de um azul intenso nesta manhã...

 Os postes de iluminação, enfeitados com flores alegres e coloridas, dão um encanto especial as ruas.

E a cidade fica muito mais charmosa...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Numa doce tarde de verão...



... Para vocês, Mario Quitana e uma rosa. 


"Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...
E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém
também pensa em mim quando fecha os olhos,
que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas
renúncias e loucuras, alguém me valoriza
pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo,
que abusa demais dos bons sentimentos
que a vida proporciona,
que dê valor ao que realmente importa,
que é meu sentimento...e não brinque com ele."


sábado, 25 de junho de 2011

Tão bom matar saudades...


Finalmente o sol se faz presente neste verão, aqui neste meu novo pouso. Quando cheguei, ontem, chovia um pouco, o céu todo enfarruscado, junto com o cansaço da viagem e a delícia de estar entre meus amores daqui, acabaram por me manterem afastada do laptop. 


Viagem tranquila, embora cansativa, recebida no aeroporto pela filhota e pelos kids, alegria do reecontro, de se estar junto novamente, tantas coisas para falar, almoço em um pequeno restaurante, chegada em casa, desfazer as malas, enfim, tudo "comme il faut". 


Depois do jantar, um joguinho de dominó com os garotos e, na hora em que eles foram ver um filme, a vovó sucumbiu ao cansaço e praticamente desmaiou na cama, só acordando pela manhã... 



São de um passeio em volta da casa, a tarde, mesmo com chuva, as fotos que enfeitam este post. E a promessa de, aos poucos, ir permitindo ao Prosa voltar ao normal.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Um imenso "muito obrigada!!...


50.000 visitas !... Wowwwwwwww...

Muito obrigada a vocês todos, leitores e amigos que são presença constante no Prosa, muito obrigada a você, visitante ocasional ou mesmo esporádico, muito obrigada também a você que passou por aqui meio que sem querer, mas marcando sua passagem com um pouco mais de alegria em meu coração pela presença. Obrigada a todos!... 
E tanto agradecimento tem uma razão de ser: O Prosa está todo prosa porque ultrapassou a marca dos 50.000 visitantes!!! E eu estou toda alegria! E em agradecimento, deixo aqui para cada um de vocês meu beijo e um selinho feito especialmente para esta data. É um mimo, de coração. 


E como já estou de malas prontas, deixo também meu até amanhã, quando volto a estar com vocês, após matar saudades da filhota e dos kids. Por ora, a tensão da viagem, da passagem pelos aeroportos do Tio Sam, as longas esperas nas salas de embarque, mas como dizia nosso amado Pessoa, "Tudo vale a pena se...".

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Apenas um sopro...



"Porque entre o sim e o não é só um sopro, entre o bom e o mau apenas um pensamento, entre a vida e a morte só um leve sacudir de panos - e a poeira do tempo, com todo o tempo que eu perdi, tudo recobre, tudo apaga, tudo torna simples e tão indiferente."

(Lya Luft)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Barreirinha, AM - Terra de um Poeta ilustre

Os leitores do Prosa sabem bem o quanto Thiago de Mello é querido ao meu coração. Um "homem da floresta", como ele mesmo gosta de se intitular, um dos poetas mais respeitados e influentes do país, um reconhecido ícone da literatura nacional. Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem, onde o poeta chama a atenção do leitor para os valores simples da natureza humana, que trazemos hoje para vocês, ao mesmo tempo em que o homenageamos no "Cidades", com um passeio a sua querida Barreirinhas, lá na imensa  Amazônia.

(Terra de Thiago de Mello, um dos poetas de meu coração...)


Os Estatutos do Homem  (Ato Institucional Permanente)



Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.


Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


Artigo III 
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.


Artigo IV 
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.


Parágrafo único: 
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.


Artigo V 
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.


Artigo VI 
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.


Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.


Artigo VIII 
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.


Artigo IX 
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.


Artigo X 
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.


Artigo XI 
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII 
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.


Parágrafo único: 
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.


Artigo XIII 
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.


Artigo Final. 
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


(Santiago do Chile, abril de 1964 )

Cada segundo....



"Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre."

(Charles Chaplin)

domingo, 19 de junho de 2011

O que não conseguimos esquecer...


Uma alegria para sempre

As coisas que não conseguem ser olvidadas
continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo
nesse mundo do sempre
onde as datas não datam.
Só no mundo do nunca existem lápides...
Que importa se - depois de tudo - tenha "ela" partido
ou que quer que te haja feito, em suma?
Tiveste uma parte de sua vida que foi só tua e, esta,
ela jamais poderá passar de ti para ninguém.
Há bens inalienáveis, há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte de tua vida presente
e não do teu passado
e abrem-se no teu sorriso mesmo quando
deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.
Ah, nem queiras saber o quanto deves à ingrata
criatura...
A thing of beauty is a joy for ever
- disse, há cento e muitos anos,
um poeta inglês que não conseguiu morrer.

(Mario Quintana)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Na manhã azul, um soneto envolvendo a alma...


Faltando menos de uma semana para minha viagem costumeira para passar o verão lá do hemisfério norte com minha filha e com os kids, ando em completa correria, principalmente porque o check-up de saúde anual que já deveria estar pronto, ainda está em andamento, de laboratório em laboratório, ou melhor de unidade em unidade, num tal de cardiologia, ultrassonografia, exames ginecológicos, etc, etc... Enfim, tudo o que se tem direito (e dever de fazer) depois que se dobra a famosa curva dos "enta". E põe "enta" nisso... rs...
Por isso peço desculpas por estar um tantinho afastada do Prosa e prometo que em pouco mais de uma semana, tudo volta ao normal por aqui. Até lá vou dando umas passadinhas, sempre que der, com a maior alegria.
O dia está lindo, azulzinho, temperatura agradável, pouco frio, a cidade parece iluminada. Ainda há pouco, na volta do laboratório, vinha lembrando de alguns sonetos de Florbela Espanca, dos quais gosto muito, e um deles, em especial, que sempre me causa encanto. ficou bailando em minha mente. E porque é lindo, vou dividí-lo com vocês...

Tarde Demais


Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio em volta a escutar...


Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!


Beijando a areia d'oiro dos desertos
Procurara-te em vão, braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, boca em flor!


E há cem anos que eu era nova e linda!...
E minha boca morta grita ainda:
Por que chegaste tarde, ó meu amor?


(Florbela Espanca)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Há quem brinque graciosamente com as palavras...

Tomei emprestado de meu filho um texto muito curioso e divertido que ele havia publicado lá no seu "Veja Bem", texto, por sua vez, recebido por ele através de um e-mail. Como veio com autoria desconhecida, assim fica... Fazer o que?  O fato é que admiro muito as pessoas que conseguem brincar com as palavras e, exatamente como meu filho, expressões idiomáticas e ditos populares sempre me encantaram. No texto, o autor brinca com as palavras que compõem expressões usadas e abusadas ao longo de gerações. Veja lá e me digam o que acharam.




Divagações de um autor sobre a arte de escrever
“Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comprou gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem grandes sacadas e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa.
Não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas. Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.
É preciso tomar cuidado para não deixar o leite azedar, não passar do ponto ou encher linguiça demais. Deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para se poder vender o peixe. Afinal, não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos, e muito menos verão com uma andorinha apenas.
Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas, como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha. Revelam-se escritores de meia tigela, que trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão. Aqueles que são arroz de festa, embora estejam com a faca e o queijo nas mãos, perdem-se em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese), achando que beleza não põe mesa. Acabam pisando no tomate, enfiando o pé na jaca e, no fim, quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou. (Quem vê cara não vê coração!)
O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.
Mas, cuidado! Se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino será só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana. Sabe como é: pimenta nos olhos dos outros é refresco!
A carne é fraca, eu sei. Às vezes, dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca e depois, quando se junta a fome com a vontade de comer, as coisas mudam da água pro vinho. Se embananar de vez em quando é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. 
Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.”

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa - Uma paixão...

Homenageando um dos poetas maiores de meu coração, Fernando Pessoa, no aniversário de seu nascimento.(13 de junho de 1888)


Tabacaria
..
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

domingo, 12 de junho de 2011

No Dia dos Namorados...


Neste dia dedicado ao amor e a paixão, não coincidentemente véspera de Santo Antônio, casamenteiro e protetor do amor, nada melhor que a apaixonante poesia de Vinícius de Moraes como homenagem aos corações enamorados, aos namorados reais ou virtuais, aos que sabem amar...

Soneto da Fidelidade


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
 
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
 
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
 
Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinícius de Moraes)

Que haja sempre muito amor em seus corações, queridos amigos...

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Quando se está em casa...


Em se tratando de tempo (clima), as coisas vão de mal a pior. Na terça-feira passada parece que grande parte do Estado de São Paulo foi assolada por vendavais seguidos de chuva de granizo. Sei que isso ocorreu aqui na Capital e presenciei a tormenta lá em Campinas. Arvores, arrancadas, poste caidos, casas destelhadas, tudo ao sabor da ventania. Não sou muito de ter medo de chuva, mas confesso que fiquei assustada, tal era o barulho do vento rasgando tudo e das pedras de gelo batendo no telhado e nas janelas. Já era final de tarde, escurecia e, de repente, a escuridão realmente se fez com a queda da energia elétrica em grande parte da cidade. Caos no trânsito, confusão, as pessoas chegando em casa muito depois da hora, jantar a luz de vela (sem nenhum romantismo), na espectativa de que a luz voltasse, mas... qual nada. Passou a noite de terça, a quarta inteirinha e só as seis horas da manhã de hoje "a luz se fez"... Arrumei minha mala para a volta ao ninho e la pelas dez, estava na estrada, embaixo de forte chuva, chuva que veio comigo o caminho todo, forte, embaçando a visão e tirando o prazer da viagem. Ainda bem que o motorista era experiente e tranquilo, porque por mais que goste de chuva, acho que ela não combina com estrada. Na entrada de São Paulo, como sempre congestionamento, mas no final, estou em casa, curtindo a tarde de chuva e frio. Pois é, quando se está em casa, é bom mesmo uma chuvinha caindo sobre a cidade...

terça-feira, 7 de junho de 2011

Estar só, as vezes...


"Fique de vez em quando só, senão será submergido. Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa."

(Clarice Lispector)

domingo, 5 de junho de 2011

Na velha Estaçao Ferroviária...



De volta a Campinas, desta vez para a consulta anual ao meu oftalmologista - Campinas é referência nacional em oftalmologia - e aproveitanto para estar uns dias com meus amores daqui... Domingo azul, de sol rasgado banhando a cidade e um friozinhooooo... 

Fachada da Estação Ferroviária

    
  ( Meu filho e minha nora)

Cheguei ontem pela manhã e á tardinha fomos, minha nora, meu filho e eu, visitar a Campinas Decor, um evento onde são apresentadas as últimas tendências em decoração. Até aí, tudo certinho, sem novidades, porque sempre que estou por aqui quando acontece esse evento vou, com minha nora, encher meus olhos de cores, afinal, quem não gosta de ver coisas bonitas? Mas o melhor foi o lugar onde está acontecendo o tal evento este ano: na antiga Estação Ferroviária de Campinas.



Também conhecida como Estação Cultura,  Inaugurada em 1872, foi tombada como patrimônio histórico e cultural da cidade em 1982 Tendo servido como estação ferroviária até 15 de março de 2001, época em que partiu o último trem de passageiros com destino a Araraquara, desde  julho de 2003, com a desativação completa da RFFSA, passou a abrigar um centro cultural, administrado pela prefeitura, e é considerada um dos pontos turísticos da cidade.




Estava tudo muito lindo, moderno, tecnologia de ponta - ambientes controlados por IPads, mas o que mais me encantou foi estar de volta ao lugar que desde sempre foi, para mim, encanto, pois nem sei contar quantas vezes em minha vida cheguei de trem a Campinas, desembarcando naquela adorável estação, quando ia passar férias no sítio de meus avós maternos, em parte porque viajar de trem era das coisas que mais gostava de fazer; adorava aquela movimentação e, mais que tudo, saber que ao desembarcarmos, encontraria meu querido avô que nos conduziria até o sítio em seu cabriolé puxado pelo Paxola, um cavalo acinzentado, tranquilo, que enternecia meu coração de menina com seu jeito manso... 

(A pergunta era: Carregador?)

(Dá para imaginar apagar um incêncio com tal equipamento?... )

Caminhar pela plataforma lindamente transformada em luxuriantes jardins - até os trilhos antigos foram escondidos por pequenos lagos, mas preservados, voltarão a surgir após o evento, pois tudo é muito bem cuidado e preservado para não descaracterizar o prédio, ver o velho relógio, os bancos, até o equipamento usado no combate a possíveis incêndios, os carrinhos usados pelo pessoal da estação para retirar as bagagens... 


Meu Deus, que linda viagem no tempo, partindo da mesma estação que tantas vezes me viu chegar e me viu partir!... Até poder tomar um cafezinho em um dos antigos vagões de carga, transformado em cafeteria?!... Foi bom demais!... 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O verdadeiro amigo...


Amigos são anjos em nossas vidas...

"Pois o verdadeiro amigo é confiável e estimulante, engraçado e grave, às vezes intrometido e irritante; pode se afastar, mas sabemos que retorna ou vai estar lá para nós; ele nos aguenta e nos chama, nos dá impulso e abrigo, nos faz melhores."

(Lya Luft - A Riqueza do Mundo)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Ah, meus Deus, essas crianças!


O circo, o menino e a vida


A moça do arame
equilibrando a sombrinha
era de uma beleza instantânea e fulgurante!
A moça do arame ia deslizando e despindo-se.
Lentamente.
Só pra judiar.
E eu com os olhos cada vez mais arregalados
até parecerem dois pires.
Meu tio dizia:
"Bobo!
Não sabes
que elas sempre trazem uma roupa de malha por baixo?"
(Naqueles voluptuosos tempos não havia maiôs nem biquinis...)
Sim! Mas toda a deliciante angústia dos meus olhos virgens
segredava-me sempre:
"Quem sabe?"


Eu tinha oito anos e sabia esperar.
Agora não sei esperar mais nada.
Desta nem da outra vida.
No entanto
o menino
(que não sei como insiste em não morrer em mim)
ainda e sempre
apesar de tudo
apesar de todas as desesperanças
o menino
às vezes
segreda-me baixinho
"Titio, quem sabe?..."


Ah, meu Deus, essas crianças!


(Mario Quintana)