floquinhos

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Ainda Quintana para sua manhã de domingo

Do amoroso esquecimento

Eu, agora, - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

O Poeta começa seu dia...

O poeta começa o dia

Pela janela atiro meus sapatos, meu ouro, minha alma ao meio da rua.
Como Harum-al-Raschid, eu saio incógnito, feliz de desperdício...
Me espera o ônibus, o horário, a morte - que importa?
Eu sei me teleportar: estou agora
Em um mercado estelar... e olha!
Acabo de trocar
- em meio aos ruídos da rua -
alheio aos risos da rua -
todas as jubas do Sol
Por uma trança da lua!

(Mario Quintana)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Numa noite sem estrelas...


A estrela

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Porque da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Porque tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia

(Manuel Bandeira)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Uma noite muito agradável...


Fomos jantar fora, hoje, num incrível restaurante marroquino, o "Agadir". aqui na Vila Madalena, bem próximo de minha casa e depois demos uma passadinha pela "Livraria da Vila" que fica do outro lado da rua. Depois de um jantar delicioso, num ambiente aconchegante, lindo, que melhor que um giro numa boa livraria? Pois então? O resultado foi um livro de Manuel Bandeira que ainda não tinha, um outro de Guilherme de Almeida e... Ah, que delicia de livro... "O Livro dos Haicais de Mario Quintana"!... Uma edição bem cuidada, com delicadas ilustrações. Estou encantada.
E vou passando um pouco desse encanto para vocês com três deles. Espero que gostem. Eu amei!

O poema

O poema
essa estranha máscara
mais verdadeira do que a própria face.


Amanhece

Um copo de cristal
sobre a mesa
Inventa as cores todas do arco-íris...


Haicai da primavera

Tua orelha num frêmito desnuda-se:
O que seria?
O que seria que te disse o vento?


Os haicais ai estão, já as fotos tiradas no restaurante fico devendo e coloco num outro dia.

Despertei com a aurora...


A noite foi de bom sono e, no entanto, madruguei - ou, com diria meu pai: "despertei com a aurora" e como acontece sempre, palavra puxando palavra, acabamos por chegar a um lindo poema de Drummond, nosso Poeta Maior...

"Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios que ainda não se modelaram,
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antimanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora."

(Parte do poema "A noite dissolve os homens", de Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Uma poesia para esta manhã chuvosa...


Vimos a lua

Vimos a lua nascer na tarde clara.

Orvalhavam diamantes, as tranças aéreas das ondas
e as janelas abriram-se para florestas cheias de cigarras.

Vimos também a nuvem nascer no fim do oeste.
Ninguém lhe dava importância.
Parece uma pena solta - diziam.
Uma flor desfolhada.

Vimos a lua nascer na tarde clara.
Subia com seu diadema transparente,
vagarosa, suportando tanta glória.

Mas a nuvem pequena corria veloz pelo céu.
Reuniu exércitos de lá parda,
levantou por todos os lado o arvoroto da sombra.

Quando quisemos outra vez luar
ouvimos a chuva precipitar-se nas vidraças
e a floresta debater-se com o vento.

Por detrás das nuvens, porém,
sabíamos que durava, gloriosa e intacta, a lua

(Cecília Meireles)

Um doce sentimento...


"Se tu vens às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz."

(Antoine de Saint-Exupéry)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Mario Quintana - Os poemas são...


Os poemas


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Simplesmente Chaplin...


"O homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar"

(Charles Chaplin)

Na madrugada insone...

O calor é quase sufocante neste fevereiro que já caminha para o seu final. É quase madrugada e fico aqui, neste terraço, tentando adivinhar estrelas que estão escondidas pelas nuvens, tentando imaginar onde estará a minha lua... Faz tempo que não conversamos, ela e eu, mas nesta noite a alma está nostálgica, pedindo colo, abraço, carinho e, sensível, põe-me lágrimas nos olhos ao compasso da música que traz lembranças. As rosas que chegaram hoje cedo parecem ressentirem-se do calor da sala, então coloco-as aqui sobre a mesinha ao meu lado e talvez a fresca aragem da noite as revigore. Mas não seriam as rosas, como certos sentimentos, frágeis como um lindo cristal que depois de partido nunca mais volta a ser o mesmo? Desses que não há restaurador que dê jeito? Ah, imagino que sim...

E aqui fico, olhando para esta cidade que não dorme, para as milhares de luzes que ficam brilhando, pisca-piscando até lá longe, onde a vista se perde, vendo o brilho dos faróis que cortam as ruas quase silenciosas, tentando tecer enredos e histórias que poderiam estar acontecendo em cada canto desta minha Paulicéia tão desvairada... E fico imaginando amores e desamores, encontros e desencontros, sonhos e pesadelos, esperanças e desesperanças, paz e angústia, tantos sentimentos antagônicos envolvendo minha gente e provocando revoluções em suas almas.

E aqui neste terraço que às vezes fica encantado, fico perdida em meus pensamentos. Fecho meu olhos deixando-me levar pela música que chega através dos fones de ouvido e vai envolvendo minha inquieta e nostálgica alma em mais uma madrugada de insônia e sonhos...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Um blog que recomendo (16)


Hoje gostaria de recomendar a vocês um espaço de muito boas leituras, um lugar onde encontramos sempre novas e interessantes histórias, cuidadosamente escritas pela amiga Graça Pereira, o excelente "Zambeziana", um espaço que "descobri" um dia, num dos giros que costumo fazer pela blogosfera e que, desde então, passou a fazer parte de minhas leituras diárias.
E hoje é dia de festa por lá já que o blog festeja seu primeiro aniversário e a Graça, muito feliz, está recebendo seus amigos e leitores com uma taça de champanhe e muita amizade e carinho.
Vale a pena uma visita a esse cantinho, não apenas para o brinde, mas principalmente para desfrutar do aconchego que os lugares especiais sempre oferecem.
Zambeziana é um blog que recomendo sempre, mas hoje o faço com carinho, com um abraço especial à Graça e muitos parabéns por este primeiro ano de vida.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sempre pode haver um recomeço (2)


Caminhando em direção ao estacionamento, após mais um dia de trabalho, Marta ia perdida em seus pensamentos, como se fizesse uma retrospectiva de seu caminhar pelos dois últimos anos, um balanço de sua vida. Fazia exatamente dois anos que Jorge se fora, deixando-a completamente arrasada, achando que sua vida estaria terminada, que nunca mais conseguiria ser feliz, que a vida não faria o menor sentido sem ele. Mas surpreendentemente vira-se cercada de amigos que a apoiaram e que, com palavras de ânimo e insentivo, foram fazendo-a perceber que ela, e somente ela, era dona de sua vida, de seu destino, que as rédeas de sua vida estavam firmes em suas mãos e que caberia a ela conduzir seu destino, escolher seu caminho e seguir por ele com esperança e confiança no futuro. Assim,tão cercada pelo carinho dos amigos foi, aos poucos, retomando sua vida. Pôde dedicar-se mais ao trabalho e sua carreira deslanchou. Tendo mais tempo para si mesma voltou a procurar cursos para fazer, ampliando assim suas oportunidades de sucesso profissional, passou a sair mais, ir a teatros, cinemas, jantares com amigos, pequenas viagens, coisas que deixara de fazer para ter mais tempo para o marido, para a casa de ambos. Ficara mais bonita, remoçada, sentia-se agora uma mulher muito mais interessante e, no final, acabara por concluir que o divórcio fora a melhor coisa que poderia ter-lhe acontecido aquela altura de sua vida. E encontrar Rodolfo naquele dia fora, como costumava dizer, pura arte do destino. Havia ido a uma exposição de arte numa das galerias da cidade, apenas para marcar presença e incentivar uma amiga que expunha seus trabalhos pela primeira vez. Caminhava pelas salas, parando diante de uma tela ou outra com mais interesse, quando alguém, postando-se a seu lado, chamou-a pelo nome e ao virar-se viu, encantada, diante de si aquele amigo querido que há muito não via, um dos tantos que de quem se distanciara após o casamento, por insistência de Jorge em mante-la afastada de todos. Abraçaram-se felizes com o reencontro e ao término da visita, sairam juntos para jantar, num bistrô quase ao lado da galeria. Tinham tanto para contar um ao outro, e assim a noite foi se alongando e quando se despediram, já quase madrugada, deixaram combinado um novo jantar, um novo encontro.
E durante os últimos dez meses haviam sido companhia constante um para o outro... Marta recuperava aos poucos o prazer de viver, a alegria das pequenas coisas, a poesia dentro de si. E, sem que se desse conta, voltava a apaixonar-se, coisa que ela jamais pensara pudesse acontecer um dia. E isso a encantava ao mesmo tempo em que a deixava um tanto assustada, pois o medo de que se repetisse tudo o que passara com Jorge, o medo de uma nova decepção, faziam-na sentir-se insegura, sem saber se valeria a pena continuar naquele relacionamento. Mas sabia que, logo mais a noite, quando o encontrasse e ao sentir os negros olhos de Rodolfo perdidos dentro dos seus, quando sentisse a ternura de seu abraço, todas as dúvidas estariam dissipadas e poderia então deixar-se levar pelos doces caminhos do amor... Pelo menos por aquela noite e, ainda que todas as dúvidas voltassem na manhã seguinte, quando estivesse so com seus pensamentos e seus temores, Marta sentia-se recompensada pela vida.

No encanto da noite...


... A poesia de Florbela Espanca.

Não digas adeus, ó sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos;
Sente o perfume da paixão antiga,
Dos nossos bons e cândidos abraços!

Sou a dona dos místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços…
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!

Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!

Espera… espera… ó minha sombra amada…
Vê que p’ra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo!…

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Uma divagação para uma tarde de chuva...

" ...quando na realidade o amor é uma coisa tão simples...
Veja-o como uma flor que nasce e morre em seguida por que tem que morrer. Nada de querer guardar a flor dentro de um livro, não existe nada mais triste no mundo do que fingir que há vida onde a vida acabou."

(Lygia Fagundes Telles)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sempre pode haver um recomeço


Chovia torrencialmente quando Marta, cumprido seu horário de trabalho, entrou em seu carro , no estacionamento do banco, ainda sem saber se tomaria o caminho de casa ou se daria uma passadinha no shopping para comprar o livro que estava querendo ler. Poderia aproveitar para fazer um lanche e assim não teria que se preocupar em ir para a cozinha naquela noite. Estava cansada, física e mentalmente, as últimas duas semana tinham sido difíceis e ela só queria aproveitar o final de semana para por suas idéias e sua vida em ordem.
Nunca imaginou que fosse tão difícil recomeçar, que o fim de um casamento há muito falido pudesse deixa-la tão abatida, tão sem expectativas... Afinal, foram dez anos de vida em comum que, por sinal, de em comum já não tinha nada há muito tempo.
Jorge e ela haviam sido apaixonadíssimos um pelo outro e estruturaram um viver de total dependência mutua, viver que se prolongou por seis ou sete anos, até que aconteceu aquela viagem de Jorge a Londres, onde ficaria trabalhando por dois meses, tempo que para ela pareceu tão longo ... Percebeu a mudança logo na chegada do marido no aeroporto. Não houve aquele beijo caloroso, cheio de saudade com que ela costumava ser presenteada a cada vez que ele voltava de uma de suas viagens de trabalho e, no dia a dia, ele foi se afastando cada vez mais, foi ficando indiferente, meio frio, distante. Quando ela questionava tal mudança ele dava como desculpa o cansaço pelo excesso de trabalho. E assim os anos foram se passando e cada um foi ficando para o seu lado até que, finalmente, Jorge tomara a decisão pelos dois. Aceitara uma transferência para Londres aonde passaria a viver, e quando ela perguntou quando iriam, ele sentou-se a seu lado no sofá da sala, tomou-lhe as mãos e, olhando-a friamente nos olhos, disse-lhe que o casamento estava acabado, que eles não tinham mais nada em comum, e que ele estava vivendo um novo amor. Conhecera-a em sua primeira viagem a Londres e, desde então vinham mantendo um relacionamento a distancia, encontrando-se a cada viagem que ele fizesse a Europa, pois sempre tirava uns dias para estar com ela em Londres.
Já havia resolvido tudo, a separação seria amigável e ela poderia ficar com todos os bens do casal, ele não queria nada alem da liberdade para recomeçar sua vida.
Marta sentiu o mundo desabar sob seus pés, mas tentando manter-se serena diante daquele homem que fora a razão de sua vida por tantos anos, tentando segurar as lágrimas que teimavam em rolar por seu rosto, apenas assentiu com a cabeça perguntando quando ele partiria... mas nem conseguiu ouvir a resposta. Correu a trancar-se no quarto onde chorou toda a sua dor.
Ele partira havia uma semana e agora ela teria que encontrar novos caminhos para sua vida. A chuva batia forte contra os vidros do carro, os pneus iam deixando um caminho no asfalto logo coberto pela força da água; Marta sabia que o recomeço seria difícil, mas havia uma vida pela frente, uma vida que ela começava a enfrentar. Enxugou os olhos, estacionou o carro na vaga encontrada, respirou fundo e partiu em busca de seu destino.

Dulce Costa
Campinas, 19 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

MEUS POETAS DO CORAÇAO - Cecília Meireles


Aqui está minha vida...


Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Quem define encanto?


"Você sabe o que é o encanto? É ouvir um sim como resposta sem ter perguntado nada."

(Albert Camus)

Uns versos bailando em mim...


Ah, bem sei que não há quem não conheça estes versos de Fernando Pessoa, mas hoje eles ficaram bailando em minha cabeça, depois de uma conversa que tivemos na mesa do café da manhã, meu filho, minha nora e eu... Então achei que eles cairiam muito bem no post de hoje.
Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

(Fernando Pessoa)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

E nesta Quarta-Feira de Cinzas, ainda Vinicius


Soneto da Quarta-Feira de Cinzas

Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada

Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada

Porque te vi nascer de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura

Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.

(Vinicius de Moraes)

Vinícius de Moraes - Nesta terça-feira de Carnaval


Soneto de Carnaval

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrando uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Um Pensamento - Drummond


"Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las. Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros."

(Carlos Drummond de Andrade"

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Anoitece... É Carnaval!...


Domingo de Carnaval, a tarde vai se pondo lindamente aqui na Cidade de Campinas aonde vim para ficar uns dias na companhia de meus amores de cá. O calor está intenso e mesmo agora, ao anoitecer o ar está parado, sem um sinalzinho de uma possível e refrescante chuvinha de verão. Mas como podemos ser tão insatisfeitos com as coisas? Até a semana passada, só se ouvia reclamações sobre a chuva que fazia São Paulo naufragar. Agora que a chuva resolveu cair em outra freguesia, aqui estou eu pedindo chuva para refrescar a noite!... Pode?... rs....
Nos clubes o Carnaval deve rolar animado, mas por aqui há paz e sossego, numa cidade quase vazia.
Hoje, lá no Rio, começa o Desfile das Escolas de Samba , um espetáculo de luxo e beleza que a TV transmite para o Brasil e o Mundo. Milhares de pessoas que trabalharam durante um ano todo para poder viver a magia do samba, a alegria do reinado de Momo, vivem nas noites de hoje e amanhã um momento de sonho. Em São Paulo os desfiles foram nas noites de sexta e sábado.
Em Salvador, Recife, Ouro Preto, Olinda e tantas outras cidades, o Carnaval faz-se em forma de muita alegria de gente muito animada que enche as ruas atrás de trios elétricos (na Bahia) ou blocos de frevo e Maracatú (em Pernambuco), cordões e blocos de foliões em tantas outras cidades, lembrando os velhos carnavais do passado que parecem estar de volta. Só não acontecem ainda os desfiles de carros (corsos) de que meus pais tanto falavam afimando ser muito bonito e animado.
Então é Carnaval e eu que nunca fui foliã, continuo preferindo o aconchego de uma poltrona, um bate-papo gostoso, um bom livro ou, no máximo, vez por outra, ver como anda o colorido dos desfiles pela TV.
Mas neste carnaval quero mesmo é curtir a companhia pra lá de gostosa de meu filho, de minha nora, de meu neto e dos amigos queridos aqui desta cidade linda que me acolhe.

Para quem gosta de folia, divirtam-se muito. Para quem gosta de sossego, aproveitem cada momento. E, para todos, bom Carnaval!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Mario Quintana - Paz na noite


A Carta

Hoje encontrei dentro de um livro uma carta velha amarelecida,
Rasguei-a sem ao menos procurar saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...

Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo.
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!

Fernando Pessoa nesta manhã de sol...


Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente expontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove

(Álvaro de Campos)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Sou, hoje, uma avó toda prosa...

Bia - Mariana e Caio

Pois é, meus amigos, o coração desta avó está que é todo felicidade. Meus netos, meus "pequeninos", começam agora uma nova fase em suas vidas. Venceram o temido vestibular e conseguiram aquilo com que sonharam tanto.
Bia, minha neta, passa a cursar letras na USP e dai talvez surja uma verdadeira escritora na família, uma vez que a avó, com o tanto que gosta de escrever, é nada mais que amadora; apenas uma "escrivinhadora". Caio parte para a Engenharia Elétrica, na UNICAMP e Mariana (namorada do Caio e, portanto, neta emprestada) segue uma vocação já esboçada no seu "Idéias e Ideais - Em Constante Mudança", um blog que já recomendei aqui, cursando jornalismo na Casper Líbero. Nâo é para uma avó estar que não caiba em si de tanta alegria?
Essas carinhas pintadas simbolizam quase que um rito de passagem. A partir de agora suas vidas tomam outro rumo, pois começam uma nova caminhada. E tudo o que posso desejar é que esse rumo seja iluminado e os leve a realização de cada um de seus sonhos.

Parabéns, meus "pequenos"!

Thiago de Mello e o tempo...

(Imagem Google)

De "O tempo dentro do espelho"
Thiago de Mello

Para cumprir-se, o tempo necessita
de tudo o que já fiz e se aproveita
da moça adormecida na campina
perante a minha dor adolescente;
dos cabelos da minha mãe tão moça,
tão valente na proa da canoa;
da lágrima no olhar do meu amigo
me dizendo "que pena, eu vou morrer";
do meu primeiro filho perguntando
"para onde vai o mar quando é de noite?",
da tua mão na minha dentro da água;
do medo que eu senti na cordilheira,
dos cavalos correndo no vulcão
assustando as estátuas solitárias
com seus olhos de pedra me espreitando;
da pele do meu peito que murchou;
do espelho sempre intacto em que se esconde
o pretérito mais do que imperfeito
da minha vida.
O tempo é a minha sina
aderida a meu sonho além da aurora,
a frágua do meu cântico futuro.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Um pensamento, apenas um pensamento...


"O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio."

(José Saramago)

Não entendo certos comportamentos...


Há coisas tão incompreensíveis, pelo menos para mim, neste nosso mundo de Deus!...
Na semana passada comentei com vocês sobre as mulheres-girafas da Tailândia, lembram-se? É que tinha assistido um documentário da série Tabu, do National Geographic Channel sobre elas. Essa é uma série sobre como o homem modifica seu corpo até de maneira cruel, seja premido por sua cultura ou seus costumes, por suas crendices ou até mesmo para se sentir diferente do resto da humanidade... Transcrevo aqui a chamada (ou introdução) do programa de ontem para que tenham uma idéia:

"Para se destacar dos demais, existem pessoas que resolvem modificar o corpo - e até mesmo depreciá-lo - para mudar aquilo com o qual nasceram … Alguns vêem o corpo como algo sagrado e ofertado por Deus e dizem que ele não deve ser alterado. Já outros fazem tatuagem, colocam piercing e até mesmo imprimem marcas na superfície da pele. Os extremistas optam por implante de chifre, tatuagem no globo ocular e redução da cintura. Para muitas pessoas estas práticas não são apenas bizarras, elas são um tabu."

Acreditem, meus amigos, fiquei estarrecida com o que vi. Imaginem pessoas implantando chifres em suas testas para adquirirem um aspecto demoníaco! Ou alguns tresloucados tatuando seus olhos - isso mesmo, os olhos, o globo ocular! E uma veneranda senhora, em seus mais de setenta anos, trazendo o corpo espremido em um espartilho vinte e três horas por dia, apenas para manter uma cinturinha de vespa, nos tempos de hoje? Imagine-se, minha amiga, num calor de trinta, trinta e cinco graus, você amarrada, quase imobilizada dentro de uma armadura de barbatanas, indo ao supermercado, dirigindo seu carro, andando num metrô ou num ônibus, lotados, apenas para ostentar uma cinturinha do tamanho de um CD... Só para constar no Livro dos Records?!... Bom, na verdade a tal madame não deve fazer nada disso, porque goza dos privilégios de um status social mais elevado e faz tudo isso (tentando ser linda e elegante, segundo declaração dela) com a ajuda e o beneplácido do marido, um cirurgião-ortopedista que é quem lhe faz os moldes em gesso para a confecção dos espartilhos - feitos por um especialista em Amsterdã, mas ainda assim, convenhamos, será que essa cabeça funciona direitinho? Sei não!...
Ah, meus amigos, mas que mundo bizarro este nosso!...

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Um blog que recomendo (15)


Venho, mais uma vez, recomendar um cantinho muito especial dentro da blogosfera, falando hoje de um blog que abre espaço para o bom humor, com histórias e casos contados de maneira descontraída, um cantinho alegre e acolhedor criado pela Beth Cerquinho, uma pessoa iluminada que já abre seu espaço com uma citação muito interessante que (pedindo licença a ela) transcrevo aqui:

"O BOM HUMOR ESPALHA MAIS FELICIDADE QUE TODAS AS RIQUEZAS DO MUNDO. VEM DO HÁBITO DE OLHAR PARA AS COISAS COM ESPERANÇA E DE ESPERAR O MELHOR E NÃO O PIOR." (ALFRED MONTAPERT)

Se você concorda com o adágio que diz que "rir é o melhor remédio", não pode deixar de visitar o "Beth Cerquinho Artesanando a Vida", um lugar descontraído, alegre, muito bem cuidado, especialmente para quem precisa de uma dose diária de alegria.

Um blog que recomendo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Tentando definir você...


Se as pessoas fossem vento você seria a suave brisa de verão que chega refrescante, doce, numa tarde de primavera, trazendo o perfume das flores do jardim, o canto do bem-te-vi distante, pousado entre os galhos de uma pequena árvore cujas folhas titilassem ao seu passar...
Se as pessoas fossem música você seria um adágio de Albinoni ecoando sobre um terraço, numa noite de luar...
Se as pessoas fossem flores você seria um cravo encarnado cujo perfume suave pairasse no ar...
Se as pessoas fossem poemas você seria "Ausência" de Vinícius de Moraes...

Algumas pessoas são vento, música, flor, poesia... Algumas pessoas são... apenas sonho!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Clarice Lispecto - O peso da alma...


"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."

(Clarice Lispector)

Como você definiria a amizade?...


Na madrugada insone, vagando pela casa, incomodada pelo calor, acabo sentando-me no terraço, aproveitando o frescor da brisa que vai balançando de leve as folhas da primavera e que traz até mim o delicado aroma do manjericão que enche um dos vasos ao meu lado.
Ainda há estrelas brilhando neste céu de verão e o dia certamente amanhecerá azul. No bem estar do momento, na doçura da noite, fico lá esquecida de tudo e, pouco a pouco vou mergulhando em meus pensamentos, vou começando a trocar dois dedinhos de prosa comigo mesma. Pessoas e momentos vão passando diante de meu coração, sobre elas vou divagando, sobre eles vou meditando e acabo por me sentir uma mulher privilegiada, pelos amores que me rodeiam, pelos amigos que me foram presenteados pela vida. E a vida tem sido bem generosa ao colocar em meus caminhos algumas pessoas muito especiais que compartilham comigo tantos momentos, muitas dúvidas, alguns segredos, muitas alegrias ou até mesmo uma certa dose de angústias, pessoas nas quais encontro identidade de pensamentos, com as quais posso trocar idéias - e nessas trocas podemos até não concordar uma com a outra, mas sempre nos respeitamos - tudo isso enfeixado em muita confiança mútua. Porque duas coisas são fundamentais quando se trata de amizade: Confiança e sinceridade. Talvez, mesmo, essas duas palavrinhas formem a base da verdadeira amizade.
Assim pensando, uma vez mais agradeço à vida pelos amigos que tenho e agradeço aos meus amigos por fazerem parte de minha vida, tornando meus caminhos mais bonitos e seguros, iluminados pelo carinho de cada um de vocês, reais ou virtuais, todos muito queridos.