floquinhos

domingo, 31 de janeiro de 2010

Cecília Meireles - Poesia do Coração

Canção

Não sou a das águas vista
nem a dos homens amada;
nem a que sonhava o artista
em cujas mãos fui formada.
Talvez em pensar que exista
vá sendo eu mesma enganada.

Quando o tempo em seu abraço
quebra meu corpo, e tem pena,
quanto mais me despedaço,
mais fico inteira e serena.
Por meu dom divino, faço
tudo a que Deus me condena.

Da virtude de estar quieta
componho o meu movimento.
Por indireta e direta
perturbo estrelas e vento.
Sou a passagem da seta
e a seta, - em cada momento.

Não digas aos que encontrares
que fui conhecida tua.
Quando houve nos largos mares
desenho certo de rua?
E de teres visto luares,
que ousarás contar da lua?

sábado, 30 de janeiro de 2010

Na manhã cinzenta, uma (vã) filosofia...


"A gente foge da solidão quando tem medo dos próprios pensamentos."
(Érico Veríssimo)

Nesta manhã de sábado quando, mais uma vez o céu parece cobrir-se de chumbo, quando pode-se antever mais um daqueles temporais que têm avassalado a cidade, fico aqui, diante da janela, "filosofando"... E vem-me à mente este pensamento do Érico Veríssimo fazendo-me refletir sobre a diferença entre estar só e ser solitário... E é uma diferença do tamanho do mundo. E, feliz, constato que apesar de só, não sei, nem de longe, o que é a solidão... Conviver comigo mesma faz-me bem, torna-me mais senhora de mim, pessoa serena a seguir pelos caminhos da vida, tentando superar obstáculos e dificuldades sem esmorecer e vivendo intensamente cada bom momento.
Bastam-me um dia de sol, o amor de meus amores, o sorriso de uma criança, o abraço de um amigo, o aconchego do meu canto. Ainda não temo meus próprios pensamentos e espero que nunca os venha a temer...
E entre meus pensamentos e minha (vã) filosofia vejo, encantada, um raio de sol que consegue abrir caminho por entre as nuvens cinzentas, como se fora para me dar bom dia!...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A Poesia de Florbela Espanca

Os meus versos

Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada dum momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram o que eu já penei!
Asas que passam, todo mundo as sente...

Rasga os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Meus sonhos são...

Os meus sonhos são refúgios... É neles que me escondo da solidão, do desamor, do tédio.
Neles o mundo quase alcança a perfeição e meu carinho, que se derrama por todos os lados, retorna a mim em forma de amor correspondido, de ternura infinita, de paixão, até... Neles ainda posso ter o frescor da juventude, a beleza dos meus trinta anos e o encanto de minha maturidade. Por tolo que isso possa parecer, é mergulhando nos meus sonhos que eu me encontro e deles consigo emergir com muito mais forças para enfrentar a pasmaceira da minha realidade... Graças a eles, vivo sozinha, mas não sou solitária, não amargo em mim o desespero da solidão... Graças a eles a esperança ainda faz parte de mim, ainda norteia meus passos.
Ah! A magia dos meus doces sonhos

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Um significado para cada vida...


"Se, apesar de tudo, os homens não conseguem fazer com que a história tenha significado, eles podem sempre agir de uma maneira que faça suas vidas terem um."

(Albert Camus)

São tantas as histórias...

Pensam que é Veneza?

Na tela da TV, a história de "Seu" Severino, um bravo brasileiro que veio lá das terras do Nordeste, fugindo da miséria, da fome. Uma história contada em cada ruga de seu desgastado rosto, uma história feita de trabalho, luta, sofrimento e, muitas vezes, humilhação, vivida numa cidade grande, numa São Paulo que, ao mesmo tempo em que acolhe, cobra de seus moradores tantos sacrifícios. Uma São Paulo com muitas caras e com muitas culturas. Uma São Paulo com ilhas de primeiro mundo entre bolsões de miséria. Uma São Paulo cultural que ainda abriga tantos analfabetos. Uma São Paulo centro mundial de gastronomia que conserva tantos esfomeados espalhados por suas vilas e ruas... Uma cidade feita de contrastes. Uma cidade para quem é forte, para quem não tem medo de enfrentar a vida, uma cidade que recompensa esforços, mas também uma cidade onde os mais fracos naufragam num mar de impossibilidades...
Mas "Seu" Severino chegou, forte, esperançoso, lutador e, depois de alguns anos, conseguiu comprar sua casinha, pequena, simples, lá na periferia da cidade. Simples por fora, acanhada por dentro, móveis baratos, uma geladeira, um aparelho de TV mais antigos, enfim, uma simplicidade que para ele era muito, pois formava seu recanto de paz quando, cansado pela dura jornada de trabalho e as horas perdidas na condução, chegava para sua noite de descanso. Era sua recompensa por tantos anos de luta.
Hoje o rosto de Seu Severino era mostrado coberto de desencanto e tristeza, olhando para o que fôra seu pequeno mundo, completamente tomado pelas barrentas águas que invadiram sua pequena casa, destruindo todo o que nela se encontrava. Móveis, roupas, alimentos, os poucos eletrodomésticos, tudo, tudo encharcado, coberto de lama, imprestável... Todo o trabalho de uma vida pronto para ser jogado fora. Culpam a natureza: implacável! Fácil jogar a culpa na Natureza. Isso exime de responsabilidade tanta gente! É muita chuva, sim... Chuva demais!... Mas se houvesse uma administração mais cuidadosa, mais atenta às necessidades desta incrível cidade e de seus moradores, se córregos, rios e riachos fossem limpos, se as bocas-de-lobo (bueiros) fossem desobstruídos, se a própria população fosse educada para não jogar lixo na rua e nos rios, não seria tudo diferente? Ou será que ainda assim a chuva causaria tantos alagamentos e, por consequência o caos que se instala por aqui? Será que não teríamos menos Severinos chorando, sem força para um recomeço? Será que seus moradores não chegariam mais cedo em suas casas ao invés de ficarem três, quatro horas presos num trânsito caótico e sem uma previsível solução de melhora? Será?...
Pobre da pobre gente humilde de minha cidade...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Boa prosa saboreando um cafezinho...


Um cheirinho bom de café pela blogosfera anuncia que o "Empório do Café Literário" reabre suas portas, após as férias, para mais uma temporada literária. E esse cheirinho bom anuncia, pois, a volta de boa prosa, boa literatura e muito bate-papo em boa companhia.
Recomendo uma visita para um cafezinho bem tirado e dois dedinhos de prosa com a Lu e a Rosemari, com a certeza de lá encontrarem vários(as) outros(as) colaboradores(as) de peso como, por exemplo, a Graça Lacerda e a Chica, que vão adorar a sua visita.

Escrevo porque...


"Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando..."

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Chove... a poesia enternece


A terceira asa

Trago uma esperança nova.
Tão nova como a primeira
luz que marca o amanhecer
da vida de cada homem.

Trago a sabedoria
das cores que dançam no ar,
mas que se reúnem,
cada qual no seu lugar,
quando é preciso fazer um arco-íris.

Trago a lição interminável
que dois amantes ensinam
quando se abraçam luminosos
para inventar o amor.

Trago o milagre da vida
que lateja neste instante
no coração de uma criança
que acaba de nascer.

Chego no rastro de um pássaro
que atravessa a luz atlântica
com sua terceira asa
feita de canto e poesia,
que rasga no tempo o rumo
estrelado da utopia.

O pássaro chega entregando
com seu poder de canção
a certeza de um futuro
que está começando agora
na aurora da tua fronte,
na palma da tua mão.

(Thiago de Mello)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Há pessoas que fazem a diferença,,,

"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre."

(Cecilia Meireles)

sábado, 23 de janeiro de 2010

Música que chega à alma...


Há dias em que a alma enrodilha-se lá dentro de nós, fecha-se para o sol que brilha lá fora depois de tanta chuva, encolhe-se para não ver a luz que entra pela janela enchendo a sala de cores quando bate nos cristais que estão sobre a mesinha de centro...
Há dias, como o de hoje, em que essa alma inquieta e travessa vira-nos as costas, não quer mesmo conversa. Quer apenas e tão somente estar consigo mesma, mergulhada em suas saudades, em sua doce melancolia...
E aí, tentando mudar-lhe o ânimo, venho passear pela blogosfera, pensando que talvez, em uma visita ou outra aos amigos tão queridos ela vá se enternecendo e vá finalmente aflorando para o sábado que já vai alto, mas...
Num determinado espaço, ao chegar aos pés de uma doce pitangueira, somos recebidas por uma música que nos paralisa, a ambas, tal a carga de recordações e saudades que carrega em cada uma de suas notas e o inevitável acontece: entre ela e eu deságua um rio de lágrimas... Deixamos que corram, essas benfazejas lágrimas, que lavem nossos rostos, que nos lavem por inteiras, que levem consigo nossas saudades, nossos sonhos perdidos, nossos momentos não vividos, para depois então, olhando-nos frente a frente, sorrirmos, e num abraço fazermos as pazes e lado a lado retomarmos nosso doce caminho pela vida.
Às vezes é preciso verter algumas lágrimas para que cheguemos ao doce sorriso. Porque, afinal, se há saudade é porque houve o doce momento que a gerou e se houve esse doce momento, houve vida, ternura, encantamento, sentimentos que sempre acolhem a alma e iluminam o coração.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Poesia para uma tarde cinzenta...


Triste encanto

Triste encanto das tardes borralheiras
Que enchem de cinza o coração da gente!
A tarde lembra um passarinho doente
A pipilar os pingos das goteiras...

A tarde pobre fica, horas inteiras,
A espiar pelas vidraças, tristemente,
O crepitar das brasas na lareira...
Meu Deus... o frio que a pobrezinha sente!

Por que é que esses Arcanjos neurastênicos
Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
Nenhum azul para te distraíres...

Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezendos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos enconbre...

(Mario Quintana)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Quando alguém passa em sua vida...


"Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."

(Antoine de Saint-Exypéry)

Dia de Festa no Blogobairro...

Hoje há muita festa lá no Blogobairro. Um dos mais bonitos espaços d'além-mar está festejando seu segundo aniversário e o "Em Prosa e Verso" não poderia deixar passar em branco esta data.
E é com carinho que trago esta rosa para a Patti, e meus parabéns ao "Ares de Minha Graça", um cantinho muito bem cuidado, elegante, de muito bom gosto não só na apresentação, mas nos textos, nos temas escolhidos para as postagens.

Parabéns, Patti, e que o ARES continue por muito tempo arejando os doces caminhos da blogosfera.

Uma cidade refém das chuvas...


Minha cidade está um caos! Dificil demais, e fica a cada dia mais dificil enfrentar os problemas desta cidade quando chove. E como chove!!! A noite toda... E parecia que toda a água contida nas nuvens caia de uma só vez esta madrugada. As fortes chuvas deste verão estão causando alagamentos, destruição, mortes, grandes perdas, em quase todas as regiões da cidade. As imagens que a TV mostra agora são desoladoras, e não há prenúncio de melhora, os meteorologistas afirmam que ainda vem muita água por ai... Dá para entender este mundo?
Eu vou é ficar aqui em casa muito tranquilinha, já cancelei meu horário no dentista, vou selecionar uns livros para acabar de ler, enfim, sair de casa? Nem pensar... Só me preocupo com as pessoas que não podem deixar de sair, que tem compromissos inadiáveis e, mais do que isso, fico aqui rezando por aqueles pobres habitantes desta cidade que moram em áreas de risco, que ficam sem opção de vida, que vivem cobertos pelo medo e pela insegurança de uma cidade que cresceu desordenadamente e que não mais tem condições de proteger seus moradores... Pobre de minha pobre gente!...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Um pensamento na tarde...


"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos."

(Charles Chaplin)

Momentos que o tempo guardou...

(Retalhos de minha vida)

A semana já vai ao meio, o mês aproxima-se do fim... Ah, a implacável passagem do tempo, esse tempo que parece acelerar seu caminhar... E aqui sentada, entre fotos que tento transpor para meus arquivos, essa sensação de fuga do tempo é ainda maior... São fotos antigas, em branco e preto, trazendo de volta ao meu coração um tempo de alegrias e despreocupação bem ao jeito das meninas de outrora, das meninas que brincavam de roda, que pulavam amarelinha, caracol, que passavam anéis, que corriam pelas ruas do velho bairro... Fotos de uma jovenzinha que nem tinha grandes sonhos, mas que sabia sonhar o suficiente para enternecer sua alma... E com as fotos, as lembranças, as presenças, as saudades. E as imagens das fotos tomam corpo e inundam minha manhã... Minhas doces amigas vêm fazer-me companhia e falamos sobre nossas vidas. De algumas sei o destino, de outras o destino me separou. Lembrando esses caminhos tão doces de nossa meninice, de nossa juventude, rimos e choramos. Aqui nesta foto a Neyde sorri, sem imaginar o quão cedo esse sorriso se apagaria. Nesta outra, com a Zizinha sentadas sobre a relva do parque, vestidos lindos de domingo... Ah, aqui estão a Ruth e a Zeza num desfile escolar de Sete de Setembro... Minha irmã, já mocinha, tão linda nesta foto!
Esta era eu? Menina meio gordinha, meio desajeitada, tímida, sonhadora desde então, menina que ao transpor a adolescência viu um dia, encantada, sua imagem refletir-se esbelta no espelho de seu quarto, quase sem acreditar na mudança, menina que foi pouco a pouco se tornando mulher, mulher que enfrentou a vida, caminhou por ela e envelhece hoje senhora de si, serenamente, com a sensação de que foi um caminhar nem sempre sereno e doce, mas muito compensador.
E continuo aqui, entre as fotos, entre as presenças amigas, entre as lembranças, mergulhada numa doce saudade, enquanto lá fora o sol se espalha pela manhã desta quarta-feira, já quase no final deste primeiro mês deste novo ano...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A blogosfera está em festa,,,

Lili Laranjo, sensivel poetiva, responsável pelo lindo site "Africa em Poesia", comemora hoje mais um aniversário e, como não poderia deixr de ser, o "Em Prosa e Verso" festeja junto essa data tão especial e deixa aqui nossos melhores votos de felicidades a essa gentil amiga.
Parabéns, Lili! Que seu dia seja lindo, iluminado pelo amor de seus amores, pela presença dos amigos mais queridos...

FELIZ ANIVERSARIO!

Há momentos...


"Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la."

(Clarice Lispectoe"

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A semana começa com Cecília Meireles...


A DOCE CANÇÃO

Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade - e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura.
Não houve, no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos.
Um arco-íris de alegria
de minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

O mistério do meu canto,
Deus não soube, tu não viste.
Prodígio imenso do pranto:
- todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal transformar em verso,
oxalá Deus não o aumente,
para trazer o Universo
de pólo a pólo contente!

domingo, 17 de janeiro de 2010

Na saudade, uma quase perfeição...

(Imagem Google)

PRESENÇA

(Mario Quintana)

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso também que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso saudade para eu te sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho que fechar os olhos para ver-te!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Simplesmente Vinicius

SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Drummond - Um pensamento


"Ah o amor ... que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porque..."

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Rosas pela manhã...

Juliana acordou com leves batidas na porta de seu quarto e, ainda sem despertar totalmente, mandou que entrassem e ao abrir o olhos deu com uma braçada de lindas rosas vermelhas que lhe era entregue por Alcinda com um sorriso no rosto e um amável "bom dia, dona Juliana. Acabaram de chegar para a senhora". Surpresa, sentou-se na cama e procurou um cartão entre as flores, mas antes mesmo de encontrá-lo sabia quem as enviara.

Pediu à criada que colocasse as rosas num vaso e que o pusesse sobre a cômoda e ficou ali, ainda envolta pelos lençóis, ainda achando que era um sonho...

Encontrara-o na tarde anterior, quando saia do banco, aonde fora conversar com o gerente sobre um pequeno investimento. Olharam-se com espanto, como se não acreditassem que, após quatro anos estavam ali novamente, frente a frente, como na primeira vez em que se viram... Naquele primeiro dia houve um esbarrão, papéis esparramados pelo chão, pedidos de desculpas, olhos nos olhos, uma troca de palavras amáveis, que acabaram na troca de telefones e um jantar uma semana mais tarde naquele bistrô. Mas ele estava sendo transferido para a matriz da firma aonde trabalhava e ao deixar o país deixou também um imenso vazio na vida de Juliana que os e-mails e telefonemas diários não poderiam preencher. E-mails e telefonemas que o tempo foi se encarregando de rarear até finalmente deixarem de acontecer, mas ela não passaria um único dia sem se lembrar dele, de sua voz, de seu olhar, de seu sorriso, de seu abraço carinhoso...

Por isso, ao encontrá-lo na tarde anterior, tinha sentido o chão fugir-lhe sob os pés, o coração disparado, como se quisesse saltar pela boca, um desamparo sem fim... E no abraço... Ah, aquele abraço compensara todas as horas de solidão e tristeza que seu coração lhe impusera. E durante horas, naquele café, falaram de suas vidas, de suas saudades...

E agora, ali, olhando para aquelas rosas, Juliana sentia a vida recomeçar. Havia uma sensação de paz em seu coração, uma sensação de caminho finalmente encontrado bailando em sua alma...


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Meus Poetas do Coração - Flobela Espanca


Poetas

Ai, as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Dois livros, duas reações...


Continuo afirmando que escrever bem é para poucos...
Não tenho, absolutamente, a presunção de bancar a crítica literária, longe de mim esse "topete", não tenho gabarito para tanto, mas creio que posso dar minha opinião sem ser mal interpretada.
Meu filho tem como paixão a música e a gastronomia, além, claro, da medicina, que é seu trabalho. Quantas horas de nossas tardes de domingo costumam ser passadas nas grandes livrarias, no setor de gastronomia, procurando novidades e descobrindo segredos da culinária mundial através dos livros!... Geralmente, quando almoçamos fora, encerramos nosso passeio com uma visita às livrarias onde sempre se encontram curiosidades como, por exemplo um livro com receitas das "quitandas mineiras" servidas nos velórios, no interior lá das Minas Gerais. Explico: Em locais afastados das grandes cidades, aonde o costume de se velar os mortos em casa ainda permanece, costuma-se, lá pelo meio da noite, na cozinha da casa, ao redor do fogão-de-lenha, onde fica um fumegante bule de café à disposição dos presentes, serem servidas quitandas (da deliciosa confeitaria mineira, como broas, pães de queijo e outras delícias mais) além da cachaça que vai esquentando a noite. E entre um gole e outro, entre um café e outro, vão rolando histórias e estórias, dessas que o povo mineiro sabe contar tão bem e que, apesar do provável inverossímel, juram que é verdade. São "causos" engraçadíssimos, são narrativas que pretendem ser apavorantes, enfim, peças de uma rica cultura popular.
Pois juntando-se essas duas peças, o pitoresco das histórias narradas num velório e as comidas e bebidas lá servidas, só poderia resultar um bom livro que reuniria usos e costumes à uma culinária típica da região. Não poderia ser diferente. Ou poderia? Pois é... Poderia sim, e foi.
Tenho em mãos um livro que, mesmo com tudo para dar certo, deixa muito a desejar. Narrado de uma maneira fria, as histórias parecem sem graça, não prendem a atenção. Não há uma ligação entre as receitas e as histórias, um filão que poderia bem ser aproveitado. Enfim, um livro que ficou sem graça... Por isso disse no inicio que escrever bem é um dom para poucos.
Já num outro livro, maravilhoso, de outra autora, esta liga os poemas e a vida de Cora Coralina à culinária goiana de maneira cativante. É a arte de bem escrever... - Cora Coralina, Doceira e Poeta - este eu recomendaria sem titubear para que gosta de poesia, para quem gosta de culinária...

Nota: Cora Coralina, Doceira e Poeta (Cora Coralina / Claudia Scatamacchia)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Um pensamento...


"O passado não reconhece o seu lugar: esta sempre presente."

(Mario Quintana)

sábado, 9 de janeiro de 2010

E Elvis ecoou na tarde...

Elvis faria ontem, dia oito de janeiro, setenta e cinco anos. Um amigo que gosta tanto de suas músicas quanto eu, esperava encontrar aqui uma homenagem ao Rei. Descuidei-me, deixei a data passar (imperdoável) e fiquei assim meio triste, com um sentimento de faltar alguma coisa em meu dia, sentimento que ficou roendo lá dentro durante todo o dia de hoje. Sai para almoçar com meu filho e meus netos e, na volta, em plena Avenida Paulista, meu filho colocou um CD para tocar e, sem que eu esperasse, a voz do Elvis preencheu todos os espaços do carro e do meu coração... Foi lindo! Imaginem a Paulista sob chuva, os faróis dos carros refletindo-se no asfalto molhado e a voz dele ecoando lindamente nesta mesma música que deixo aqui para vocês, agora. Se a vida é feita de momentos, aquele foi, sem a menor dúvida, um lindo pedaço de vida...
Se o quiserem ouvir, por favor, desliguem a música (no final da página) e apertem play aqui no video.

Estar em paz com a vida...


O sábado amanheceu radioso, o sol espalhando-se por sobre a cidade, um calor típico da estação prenunciando que à tarde, novamente, teremos chuvas fortes. Bill repousa sonolento entre a primavera e o vaso de manjericão, cabeça descansada sobre as patas dianteiras esticadas, olhos semi-cerrados... Sentada no terraço, enquanto saboreio meu café da manhã, ouço o alarido dos bem-te-vis que se acomodam entre as árvores e os beirais, dando ao momento uma sensação de que o mundo caminha em paz... E se a vida é feita de momentos, este é, sem dúvida, um doce pedaço da vida...
Sempre precisei de muito pouco para me sentir feliz, para me sentir em paz com a vida e comigo mesma. Basta-me saber que meus amores estão bem, que meus amigos também o estão. Basta-me ter meu canto aonde possa cultivar meus sonhos, mergulhar em meus livros e em minhas músicas do coração, onde possa sentar-me em minha poltrona predileta e deixar minha alma divagar e vagar pelo mundo em busca de seus anseios, basta-me ser eu mesma, sem máscaras nem disfarces, senhora de mim e de meu tempo...
E é assim que estou me sentido hoje, agora, neste dia de azul intenso, de sol e calor, apesar dos prenúncios de chuvas fortes à tarde e de possíveis temporais pela vida a fora...

Um piano na tarde


Surdina

(Cecília Meireles)

Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida numa poltrona
jaz diante da janela aberta.

Vejo árvores, nuvens - é a longa
rota do tempo, descoberta.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de malancolia...