floquinhos

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

MEUS POETAS DO CORAÇAO - Manuel Bandeira

Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Em Campinas, por uma linda causa...

(Campinas,uma cidade acolhedora)

Pois é, meus amigos, estou de novo em Campinas e nos próximos dias este será meu pouso, será daqui que lhes falarei. Vim para a festa de formatura de meu neto, Caio, que será amanhã. E fico olhando para ele, um rapagão alto e forte em seus dezoito anos e não posso deixar de me lembrar do dia em que veio ao mundo. Estavamos, meu marido, minha filha e eu, nos preparando para irmos a casa de meu filho Bira, que aniversariava naquele 16 de setembro, quando o telefone tocou. Era o aniversariante que, emocionado e nervoso, nos avisava qua o jantar fora cancelado porque o Caio estava chegando, como o mais lindo presente de anivesario que ele jamais recebera. Acompanhei seu crescimento, foi minha a algria de dar o primeiro banho em meu primeiro neto, estive em seu batizado, vi seus primeiros passinhos, ouvi emocionada a primeira vez que disse vovó, seus primeiros tempos de escola - ah, a quantas festas juninas organizadas nessas escolas assisti toda feliz, com aquela cara de vovó deslumbranda ao ver o neto dançar a quadrilha... depois eles se mudaram para cá e o convivio ficou menor, mas não menos feliz. O tempo foi passando, de menino passou a adolescente, já é um homem, e a vovó continua olhando para ele com o mesmo enlevo com que se olha um menino muito amado...

Então hoje estou aqui, de novo, para partilhar com meu filho e minha nora mais esta etapa da vida deles. E daqui vou lhes falando, contando coisas, trocando idéias, visitanto os amigos...

BLOGAGEM COLETIVA - Diga não a violência infantil

(A iniciativa desta blogagem foi da Beta do "http://mixdeinformacao.blogspot.com" - para participar, basta seguir o link)

A Graça Lacerda, de "Os Botões de Madrepérola" está orquestrando uma campanha contra a violência infantil, numa blogagem coletiva, onde expõe uma interessante proposta citando a palavra como possivel arma para combater essa violência, para abrir novos caminhos para a educação e formação das novas gerações. Propõe a força da palavra como alicerce para a construção de uma nova mentalidade, de uma nova conduta dos adultos responsáveis com relação a esse terrível problema, e o "Em Prosa e Verso" adere a essa campanha.

Desnecessário falar aqui sobre o que vive estampado nos jornais escritos, falados e televisivos a respeito da forma como cresce parte de nossas crianças, ora ao Deus dará, lançadas a própria sorte, largadas nas ruas por pais e autoridades, sofrendo toda espeécie de maus tratos, crianças sem futuro, sem esperança... Ora criados por pais permissivos demais que nada negam a seus filhos, relegando-os a um futuro pouco sedutor por força do carater que essa permissividade lhes forma... Não são apenas os maus tratos físicos, as pancadas, a fome, o desamparo que devem ser considerados violência. Violência é tudo aquilo que faz mal, que fere, que traumatiza, que encolhe um ser humano... Violência é também o não educar, o não oferecer a um filho a chance de ser uma homem de bem, porque não teve coragem de dizer não, é deixá-lo pensar que o mundo é propriedade dele, que foi criado para servi-lo, porque mais tarde, quando tiver que enfrentar a vida, ele vai se afogar nesse mundo... E, acima de tudo, violência é não amar ou, em nome desse amor, fechar os olhos para os seus destinos... Nada deve ser feito nos extremos. Falta de amor gera frustração, magoa, desengano, revolta... Excesso de amor mau controlado gera irresponsabilidade, egoismo. egocentrismo, indiferença...
Assim como é preciso medir os atos, as ações, é preciso medir as palavras empregadas em cada um deles e educar é talvez a mais dificil das tarefas... Criar um filho é muito facil... Educar correta e convenientemente esse filho, fazendo dele uma pessoa feliz e integra, ah... ai a conversa é bem mais longa, é tarefa para toda a vida... E a displiscência para com a formação infnntil não deixa de ser uma violência...

Mario Quintana na sua manhã...


Inscrição para uma lareira


A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!

Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

MEUS POETAS DO CORAÇÃO - Vinicius de Moraes


Meus caros, volta-se porque se tem saudade
Porque se foi feliz intimamente
Volta-se porque se tocou num inocente
E porque se encontrou tranquilidade

A despeito da vida que acorrente
Volta-se, volta-se para a sinceridade
Volta-se sempre, tarde ou de repente
Na alegria ou na infelicidade.

E nada como esse apelo da lembrança
Pra se transfigurar numa esperança
Essa desolação que uma alma teve

Assim é que, partindo, eu vou levando
Toda a desolação de um até quando
Num ardente desejo de até breve.

Um blog que encantou meus olhos...


Acho que é mania... Talvez uma doce mania, mas toda vez que me encanto com alguma coisa gosto de dividi-la com meus amigos, na esperança de que se encantem também. Pois ontem, perambulando pelos blogs, encontrei um lindo mundo de cores suaves e imagens delicadas, algumas colocadas com ternura, outras com humor. Poucos textos, sem fotos, apenas um trabalho de designer que achei bonito.
Um blog diferente e muito criativo, a começar pelo nome - "
6vqcoisa" - uma curruptela para "vocês vêm que coisa" no linguajar dos povos do interior de muitas partes do Brasil. O blog vem assinado por "Tonholiveira", de Porto Alegre (Rio Grande do Sul).
Tem um ar brincalhão e mesmo quando mostra cenas serias as imagens são delicadas. Para quem gosta de curiosidade, vale a pena dar uma passadinha por lá.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Este Blog agora é VIP!... WOW!...


Pois é, meus amigos, este meu cantinho está ficando cada dia mais prosa, com a gentileza e o carinho que vem recebendo dos amigos. Agora mesmo está nas nuvens, porque foi elevado a categoria de "VIP", por indicação do Carlos Barbosa de Oliveira, do excelente "Crônicas do Rochedo".
A atribuição desta simpática comenda é justificada pela autora (de A Nossa Candeia) com a frase que acompanha o prêmio e lhe confere o certificado de garantia: "Your blog is just perfect to lern something every day",
Mas não perdemos nossa simplicidade, nem nosso jeito de ser, não colocamos "o nariz em pé", nem vamos nos deitar nessa "fama". Muito pelo contrário. Vamos trabalhar mais e mais, para que este lugar continue sendo um cantinho amigável, simples e agradável de se estar, para que nossos amigos sintam-se em casa a cada vez que nos visitem.
Agradecendo ao Carlos, de coração, levamos nosso selinho VIP para um espaço especial, lá no Livro de Meus Selos, onde ficará cuidadosamente guardado.
Muito obrigada, Carlos. Estamos muito felizes e honrados com sua gentileza.

Cabe-me agora indicar doze outros blogs para esse prêmio - sempre muito dificil, para mim, fazer essas escolhas, ma regras devem ser cumpridas...

Mau Triste e Feio
Na Casa do Rau
Coisas do Arco da Velha
Conversas Daqui e Dali
Quintana Eterno
Wallarte
Foi desse jeito que eu ouvi dizer
Empório do Café Literário
Seara de Versos
Adolfo Payés - Poemas
Ave sem Asas
O Açor



Meus agradecimentos a todos


Queridos amigos, venho agradecer a cada um de vocês pela presença e pelo carinho dispensado ao "Em Prosa e Verso" no dia de ontem. Foi uma festa, para mim, inesquecível. A cada um que ia chegando, uma nova alegria ia pairando no ar, um novo aconchego ia se instalando no coração.
Cercada de amigos, o dia transcorreu cheio de luz e pleno de alegria. Agora, como sempre acontece após uma festa, é hora de botar ordem na casa, voltar os móveis para o lugar, guardar os presentes. Começo por guardar os presentes. Levo-os para o Livro dos Meus Selos, uma espécie de sala/caramanchão onde, entre minhas flores e minhas músicas favoritas eu me refugio para iluminar minha alma com a lembrança dos amigos. Depois de tudo em ordem, volto a rotina com a certeza de que sou uma mulher privilegiada pela vida. Porque só as pessoas privilegiadas são agraciadas com tantos e tão lindos amigos.
Muito obrigada, de coração, pela presença de todos e, mais que tudo, pela amizade de cada um de vocês.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Venham festejar comigo


Hoje o "Em Prosa e Verso", vestido de festa, recebe seus amigos e leitores para um brinde especial. Afinal, é seu primeiro aniversário.

Quando há um ano dei inicio a este espaço nem imaginava que ele me traria tantos amigos e tantos momentos de alegria e afeto. Foi um tímido começo, sem saber exatamente o que aconteceria neste cantinho, sobre o que falaria, como me conduziria na blogosfera, até então uma incógnita para mim, mas pouco a pouco as amizades foram se formando, permitindo assim que o Em Prosa e Verso encontrasse seu caminho.

E devemos isso a cada um de vocês, amigos e leitores deste espaço que, com amizade e generosidade vêm nos apoiando, acompanhando, insentivando, dia após dia.

E, para marcar esta data tão importante para mim, o "Em Prosa e Verso" está oferecendo um selo comemorativo a todos os amigos e leitores, com um MUITO OBRIGADA e todo o nosso carinho. Peço-lhes que, antes de sairem, passem na sala ao lado e pequem o selinho - feito especialmente para vocês.

Sejam bem-vindos à nossa pequena mas significativa festa de primeiro aniversário.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Em dia de ser avó...

Ai estão meus dois bebês... Linda foto tirada há praticamente dezoito anos.

Costumo encarar a passagem do tempo com serenidade, mas às vezes eu me surpreendo com a sua velocidade. Neste meu já um tanto longo caminhar pela vida fui vendo com muita tristeza meus "antigos" irem partindo uma a um, bem como os não antigos, marido, irmãos, amigos, primos, irem ficando em seus finais de curtas e nem sempre doces caminhadas. E vi também, com extrema alegria, meus "novos" chegando: filhos, netos, sobrinhos, meus e de amigos. Foram chegando, crescendo, abrindo suas asas para o mundo, para a vida... E vou acompanhando cada passo desses meus amores, seus primeiros passinhos, suas primeiras palavras, a primeira escola, a primeira comunhão, primeiros amores, casamentos dos filhos e sobrinhos, a alegria do nascimento dos netos e sobrinhos-netos, e tudo parece que foi acontecendo no último ano, na última semana, parece que foi ontem, como se costuma dizer.
É, parece que foi ontem que o Caio nasceu. Primeiro neto, antecedendo ao nascimento da Bia, unica neta, um mês depois... Dois bebezinhos em casa nos almoços de domingo, duas lindas crianças a alegrar nossos dias. É, parece mesmo que foi ontem... Só parece, porque lá se vão dezoito anos... E meus dois bebezinhos estão agora preparando-se para o vestibular, neste final de ano. Caio quer ir para a UNICAMP fazer engenharia, Bia quer ir para a USP fazer letras. E eu só quero mesmo que eles sejam muito felizes, que alcancem seus ideais, que realizem os seus sonhos...
No ano passado, quando da formatura da Bia, estava em Winchester e, por problemas familiares, não pude vir para estar com ela e com meu filho Fábio, todo orgulhoso, num momento tão especial. Agora é a vez do Caio que, terminando o colegial, tem sua festa de formatura no próximo sábado, o que me leva para Campinas, para estar com ele e com meu filho Bira e minha nora Maria Antonieta, num momento são significativo de suas vidas. E esta vovò não cabe em si de tanta alegria, por ve-los crescendo, seguindo seus caminhos, abrindo as asas para o mundo...
Deus os guie e abençoe, netos tão queridos, e que lhes permita carreiras sólidas aonde possam desenvolver suas vidas honrada e generosamente e aonde possam realizar seus mais lindos sonhos.
E Deus abençoe igualmente meus outros quatro netos que como os dois mais velhos, inundam minha vida de luz, meu coração de alegria.
Porque hoje é dia de ser avó!... rs...

domingo, 25 de outubro de 2009

Aprende-se com a vida...

Este é um vídeo que, a partir de hoje, fica lá na porta de saída do blog, como um agradecimento aos meus amigos pela visita. Uma interpretação magistral de Jean Gabin de um entendimento que só um longo caminhar pela vida nos propicia. Espero que gostem. Por favor, não se esqueçam de tirar a música do blog (aí na coluna da direita)

Num domingo enfarruscado...


O domingo amanhece meio enfarruscado, o tempo assim com cara de indeciso, sem saber se vai chover ou se vamos ter sol, um domingo com cara de uma preguiçosa segunda-feira. Um domingo de ficar sozinha, entre livros, CDs, pensamentos e, claro, esta minha janelinha para o mundo, que me aproxima de amigos, que me leva a tantos lugares que, ao vivo e a cores, nem sonharia conhecer.
E perco-me em pensamentos, fico aqui sismando, pensando na beleza das pequenas coisas que nos cercam, dos momentos fugidios que nos envolvem, nessas pequenas coisas que fazem de nós, momentaneamente, criaturas felizes, ainda que não nos apercebamos disso. O primeiro café no terraço, ao amanhecer, o acordar com o bem-te-vi fazendo arruaça nos beirais, o riso vindo do apartamento vizinho, a música que nos envolve, a água que escorre pelo corpo durante o banho matinal, uma voz querida ao telefone dizendo bom dia, o sorriso das crianças, um abraço carinhoso - adoro abraços - , um por-do-sol, um poema encontrado num livro que ficara esquecido na prateleira...
São tantas as pequenas coisas que vão acontecendo rotineiramente, pequenas e parecendo insignificantes, mas que fazem a diferença, que nos permitem estar de bem com a vida. Porque entendo que estar de bem com a vida é viver pequenos e grandes momentos com a mesma intensidade, com o mesmo amor, com a mesma alegria.

E um domingo enfarruscado é momento de se estar bem com a vida? E porque não? Se há música no ar, poesia no coração, paz em meus caminhos... Abro a janela, abro um sorriso e digo "bom dia, vida! " e vamos, ela e eu, mergulhando no doce cinzento do dia que pretendo iluminar com o amor e a ternura que sinto agora dentro de mim.


sábado, 24 de outubro de 2009

Só porque hoje é sábado...


E um lindo sábado de sol, primaveril e agradável...
Estava eu aqui no bem-bom da manhã tranquila, folheando meus livros de poesia, quando dei com uma preciosidade do Poetinha, sempre tão sagaz, analizando o sábado. E, pobre do Criador, levou a culpa por um monte de coisas... rs. Claro que estou falando de Vinícius de Moraes.
Queria deixar aqui para vocês esse poema, mas acho longo demais para este blog, então fui ao meu site e preparei uma página especial onde coloquei o poema e, se algum de vocês quiser ler, basta seguir o link. Trata-se de "O Dia da Criação" e, para quem não conhece, recomento. É bem "Vinícius".
E sejam muito felizes, PORQUE HOJE É SÁBADO...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

MEUS POETAS DO CORAÇAO - Fernando Pessoa


Começa a haver

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...

Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino! —
Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me...
O som de um portão que se fecha brusco dóí-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa.

(Alvaro de Campos)

Simplesmente Nilda


Hoje vou lhes falar de uma pessoa que, nos últimos três anos, tem convivido comigo diariamente. Vou apresentar-lhes a Nilda, minha “fiel escudeira”.
Premida pela necessidade, deixou para trás sua pequena cidade lá nas terras da linda Bahia e, nela, seus dois filhos, frutos de dois casamentos malogrados, que ficaram aos cuidados de sua mãe. Veio tentar a sorte em São Paulo, como o fizeram e fazem ainda, milhões de nordestinos, gente sofrida, lutadora, que enfrenta esta cidade, cruel e generosa a um só tempo para com os novos filhos que a adotam como ninho,
E de nada lhe valeu seu diploma de magistério, com tantos professores desempregados ela seria mais uma. Cheia de garra, pegou bravamente os empregos que tinha pela frente e sem medo do trabalho, foi refazendo sua vida por aqui. Um dia encontrou o Ernilson, homem bom vindo lá das terras do Ceará, terra dos verdes mares, e com ele começou uma nova família. Assim pôde trazer para junto de si seus dois filhos e vão tocando a vida, cada dia melhor.
Esta mulher lutadora, generosa, que chega aqui em casa todas as manhãs com um sorriso no rosto e a alegria em torno de si, vai pondo em ordem minha casa, cuidando de nossas roupas, preparando uma comidinha saborosa... Perdeu-se de amores pelo Bill, o schnauzer aqui da casa, que a acompanha o dia todo, atrás dela para lá e para cá.. . Se ela está arrumando a sala ou os quartos, ele fica sentadinho junto a porta, se ela está na cozinha, lá está ele fazendo-lhe companhia. E ouve-se então sua fala mansa em conversa com o cão, tratando-o como a uma criança. É notório seu amor pelos animais, já que em sua casa cuida de dois cães, um papagaio, alguns peixinhos num aquário e, por conta de seu marido, alguns pássaros. E como tudo fica mais fácil quando se tem amor no coração, o sorriso fica-lhe nos lábios e a generosidade em torno de si.
E a tardinha, quando termina seu horário de trabalho, solta seus lindos cabelos cacheados, põe-se sobre os altíssimos saltos agulha de suas sandálias, emoldura seu corpo bem feito em ajustados jeans, e lá se vai feliz da vida, bonita figura lembrando Gabriela, a que cheirava a cravo e tinha cor de canela (maravilhoso Jorge Amado), enfrentar uma jornada de mais de hora e meia entre caminhadas e ônibus lotados, para chegar a sua casa, numa das cidades satélites da grande São Paulo.
Essa é Nilda, a que chegou cheia de esperanças na cidade grande e que mercê seu caráter, sua personalidade generosa, seu amor pela vida, foi transformando seus dias e hoje pisa com orgulho seus caminhos ainda difíceis, mas um pouco mais floridos, iluminados pelo amor que traz dentro de si e que espalha por onde anda.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Uma rosa oom o carinho da amizade


Tenho encontrado aqui amigos muito lindos e especiais, pessoas de sensibilidade à toda prova, de alma gentil e amiga, gente que traz em si amor e ternura. Aliás, estas são características de todos os frequemtadores constantes do "Em Prosa e Verso" e citar um ou outro seria talvez cometer uma injustiça, mas hoje peço licença para falar de uma de vocês, em particular, porque me comovi ao entrar no seu espaço e ver que, ainda que com a alma partida por uma perda, ainda que triste, magoada pela vida, ainda assim lembrou-se de oferecer uma flor aos amigos. Era ela quem precisava do nosso carinho, da nossa amizade neste momento difícil e, no entanto, é ela quem nos oferece esse carinho em forma de linda flor...
Mas quem a conhece sabe bem o quanto é despreendida e amiga, sabe que faz de seus dias momentos dedicados a quem precise de sua ajuda, pelo próprio trabalho que exerce como voluntária junto ao Corpo de Bombeiros de sua região... Agora já sabem que falo da Lisa, nossa querida amiga, do lindo blog "Mar de Chamas".
Obrigada Lisa, pela rosa, pela sua amizade, pelo exemplo que deixa por onde vive.Guardo com carinho esta linda rosa no Livro dos Meus Selos, junto aos mimos que tenho recebido de tantos amigos lindos que, assim como você, têm adoçado minha vida.

Drummond, numa manhã de chuva


Ao amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Um blog que recomendo (8)


Não faz muito tempo que encontrei este blog, mas tornei-me sua assídua leitora e, para quem gosta de crônicas, vai aqui minha sugetão: passem lá pelo Pretextos-elr. São crônicas sempre interessantes, bem estruturadas, bem escritas por Eduardo Lara Rezende, um jornalista lá das Minas Gerais que se diz "aprendiz da palavra", mas que a emprega com muita propriedade.

Vale bem a pena conferir.

O primeiro café, ao amanhecer...


Vem, meu amigo, sente-se comigo aqui neste terraço. Vamos tomar um café enquanto os primeiros raios de sol começam a iluminar a cidade.Vamos juntos adoçar nossas almas com a beleza das cores deste amanhecer, ver cada uma das luzes que ilumina a cidade irem se apagando, uma a uma... Sentir o silêncio da madrugada que termina ir sendo substituído pelos ruídos do dia que começa: o canto dos bem-te-vis, o ronco dos motores dos carros que passam lá em baixo, na rua agora em movimento, o som dos apartamentos vizinhos que despertam para o dia... E enquanto a magia do ciclo da vida vai se desenrolando diante de nós, podemos falar sobre tudo ou sobre nada, podemos contar sobre nossos caminhos percorridos ou sobre esperanças que ainda guardamos no coração. Mas se preferir, podemos ficar em silêncio, simplesmente sentindo o momento. Aí talvez você segure minha mão e eu não mais me sentirei sozinha...
E depois do amanhecer, quando tivermos voltado a realidade de nossas vidas, haverá mais uma doce lembrança a acalentar nossos dias por vezes tão vazios, e será um pouco mais doce nosso caminhar. Vem, meu amigo, sente-se aqui, comigo, e vamos tomar nosso primeiro café, vamos sonhar nosso mais belo amanhecer...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Fernando Pessoa - ao cair da tarde...

Passagem das horas (Extrato)

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(Álvaro de Campos)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Caixas de surpresas...


"Abrir caixas, cestas e pacotes aos poucos é mergulhar na fantasia...A vida e o futuro são essas caixas que vamos abrindo a cada dia, sem saber o que há la dentro, sorriso ou frustação"

(Artur da Távola)

domingo, 18 de outubro de 2009

A poesia de Florbela Espanca...


AONDE?...

Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estás amor? Aonde... aonde... aonde?...
O eco ao pé de mim segreda... desgraçada...
E só a voz do eco, irônica, responde!

Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tão linda
Cantante como um rio banhado de luar!

Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E só a voz do eco à minha voz responde...

Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estás, amor? Aonde... aonde... aonde?...

sábado, 17 de outubro de 2009

Lembrando Tatiana Belink


Hoje cedo, enquanto fazia minha cama, liguei a TV e, fascinada, vi uma senhorinha linda dando uma entrevista, falando sobre sua vida, seu trabalho, seu amor pelas crianças. Imediatamente veio à minha memória os tempos de infância de meus filhos, quando ao anoitecer eles se sentavam diante da televisão para se deliciarem com "O Sítio do Pica-pau Amarelo".
A senhorinha linda, de gestos suaves e de olhar brilhante era nada mais, nada menos que Tatiana Belink. Nos tempos em que os programas de TV ainda eram apresentados ao vivo, e não a cores, Tatiana e seu marido, Júlio Gouveia, traziam para as crianças as lindas histórias de Monteiro Lobato. Ela, transcrevendo e ele apresentando um programa onde Narizinho, Pedrinho, a boneca Emília, o Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Tia Nastácia, personagens que habitavam o Sitio e que haviam encantado minha infância, vinham encantar a infância de meus filhos que tiveram através de Monteiro Lobato seu primeiro contato com a literatura, exatamente como eu.
Era a representação fiel dos livros, diferente desse Sitio que hoje "habita" nossa TV, aonde as personagens são recriadas, onde novas histórias são inseridas, onde Monteiro Lobato não se encontraria. Uma TV que tem escritores de novelas e minisséries que pensam que escrevem melhor que Jorge Amado, Ligia Fagundes Telles ou qualquer um de nossos escritores, porque nunca se mantém fieis à obra e com isso os telespectadores é que perdem.
Mas eu falava de Tatiana Belink, uma russa criada no Brasil, mulher inteligente, culta, que aos noventa anos mantém a chama da vida e da criatividade muito acesa, ainda nos brindando com suas crônicas, seus livros, suas histórias e sua magia. Mulher que me encantou no passado, que me encanta ainda hoje e que me deu imensa alegria em rever, em sabe-la bem.
Ganhei meu dia!...


Nota - Um pouco mais sobre ela? Clique aqui.

Para meus amigos...


Que a estrada se abra à sua frente,
Que o vento sopre leve às suas costas,
Que o sol brilhe morno e suave em sua face,
Que a chuva caia de mansinho em seus campos.
E até que nos encontremos de novo,
Que Deus o guarde nas palmas de Suas mãos.

(Prece irlandesa)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Anoitece... Eu leio que...

(Clarice Lispector)

"Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca."

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Um pensamento...

(Boston Park)

"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."

(Carlos Drummond de Andrade)

Neste dia dedicado aos mestres...

Vejam o tamanho dos laçarotes que nos faziam usar na cabeça (rs)

Hoje, aqui no Brasil, comemora-se o dia do professor. Um dia de homenagens aos mestres, aos que são responsáveis peloa formação educacional de todos nós, dos primeiros anos escolares à universidade. Não questiono aqui méritos ou deméritos do ensino atual, valores, ou seja lá o que for. Apenas lembro que são pessoas dedicadas, que merecem nosso respeito e nossa gratidão, para sempre. Sinto saudades, até hoje, de algumas de minhas professoras. Presto aqui minha homenagem não so a elas, mas a todos os(as) professores(as) neste dia especial, em forma de crônica.


Lembrando minhas professoras

Final de inverno, o sol brilha radioso por entre os prédios, dando á tarde que começa a cair um nostálgico tom de primavera e o som das crianças que deixam a escola após mais um dia de aulas enche o ar de alegria e musicalidade... Como pássaros que tivessem ficado retidos em gaiolas, ganham a rua como se ganhassem a liberdade dos ares sem fim, rindo, falando, gesticulando, algumas até se despicando, e vão passando por sob minha janela trazendo a meu coração lembranças de tardes iguais a estas onde, como elas, despreocupada, trazia em mim tantas esperanças no porvir...
Vejo as crianças de hoje com tantos afazeres, tantas opções de lazer, tantas escolhas, que não posso deixar de comparar os caminhos que se abrem diante de meus netos com o que tinha aberto diante de mim. Meu caminho não tinha atalhos nem muitas saídas. Crescendo num bairro operário, povoado por imigrantes que, devido às dificuldades da vida, nunca tiveram tempo nem chance para estudos, às crianças do Brás não era exigido mais do que uma nota mediana que as fizessem passar de ano; não tinham o privilégio de crescer entre livros nem de ouvir histórias da humanidade; Os pais mais “cultos” tinham por hábito a leitura de jornais (na maioria das vezes, esportivos), e assim, os pequenos sequer sabiam que com um pouco de esforço poderiam, talvez, chegar a estudar um outro idioma ou mesmo ter acesso a bibliotecas, exposições, museus, dando às suas almas o alimento indispensável para uma compreensão maior e melhor da vida.
Nossos horizontes eram tão limitados que o sonho maior de uma garotinha, quando o tivesse, era o de ser professora, porque sua professorinha era a pessoa mais importante que ela conhecia, não por ser quem lhe ensinasse as primeiras letras ou a tabuada, mas porque ninguém, aos olhos da criança que a comparava com as pessoas que a cercavam, sequer chegava aos pés daquela abnegada mulher que dedicava sua vida á formação dos pequenos seres que lhe eram confiados. Ser professora, naqueles tempos, era um privilégio, embora sua vida não fosse nada fácil, porque o salário era pequeno, o que a obrigava a viver modestamente, mas sempre com muita dignidade. Por isso, eram olhadas com admiração e respeito. Certamente ainda encontramos, nos dias de hoje, muitas e muitas professoras com o mesmo senso de responsabilidade, com o mesmo ideal de vida daquelas maravilhosas mulheres que ajudaram a formar caráter e a moldar o destino de várias gerações.
Tenho especial carinho por minha primeira professora, Dona Adelaide, uma senhorinha delicada que usava de muita autoridade e firmeza no trato com os alunos, sem perder a doçura da voz. Através das brumas do tempo, posso vê-la ainda, cabelos grisalhos, arrumados num coque preso à nuca, óculos que não conseguiam esconder a vivacidade de seus olhos e, não sei se realmente usava sempre roupas escuras mas é assim que me lembro dela, num vestido de seda azul marinho com florinhas brancas estampadas, mangas compridas, gola arredondada, presa por um camafeu. Mas o que me intrigava muito era o fato dela colocar outro par de óculos sobre os que sempre usava, para poder ler de perto. Aquilo para mim era surpreendente e a característica principal dela, pelo menos naquela época. Tive algumas outras professoras que também ficaram carinhosamente guardadas em minha memória, como Dona Mocinha, Dona Odete, que como Dona Adelaide eram também mestras do Grupo Escolar Romão Puiggari no final dos anos 40, início da década de 50. Depois fui para a Escola Industrial Carlos de Campos onde, além das matérias regulares, tínhamos também formação profissional e onde tive também professoras que marcaram minha vida, como as duas professoras responsáveis pelo curso de flores, e que eram o total oposto uma da outra. Enquanto uma era delicada, gentil, de fala mansa e olhar tranqüilo, a outra era extrovertida, bem falante, e parecia trazer um vulcão dentro do olhar.
Claro que temperamentos tão diversos, só poderiam gerar conflitos que quase sempre eram diluídos mercê a mansidão de alma da primeira. Mas um dia, as coisas chegaram a um ponto sem volta e explodiu uma guerra de palavras trocadas entre lágrimas e sussurros de uma e gritos e gestos de outra que, não se conformando com as lágrimas que rolavam pelo rosto da opositora, que aos olhos das alunas poderia fazer dela uma vítima, saiu da classe vociferando:
- Lágrimas de crocodilo!... Agora se faz de vítima e derrama lágrimas de crocodilo!... Crocodilo? Não, crocodilo é muito pra você...
E buscando lá no fundo da alma suas raízes espanholas, encheu o peito e, mãos na cintura, bradou em alto e bom tom antes de virar as costas e sair desabaladamente em direção à porta da oficina de aula:
- Lagartija!... Lagartija!... Eres una lagartija...

Minhas queridas mestras! Saudades imensas de todas essas mulheres a quem devo grande parte de minha formação e que trago presentes em minhas lembranças... Como gostaria de poder abraçar cada uma delas e agradecer pela parte de meu caminho que lhes coube e que elas tão bem souberam aplainar para que meus passos fossem mais seguros em direção ao dia de hoje!...

Dulce Costa
SP/setembro de 2001

BlogAction Day - Participe

Foto: AstroPT

Assinala-se hoje o "BlogAction Day" e o "Em Prosa e Verso" associa-se também a este evento blogosférico que tem por objetivo alertar a comunidade blogueira para as questões ambientais. Recomendo uma visita ao Crônicas do Rochedo aonde o Carlos Barbosa de Oliveira coloca pontos essencias para a conservação do meio-ambiente, oferece dicas e coselhos para a proteção do planeta, tão desgastado, tão judiado e pedindo socorro ao homem, bicho insensível que em sua ganância o destrói sem se importar com o futuro de seu mundo.
Recomendo também uma visita ao site do BlogAction Day e, concordando e querendo apoiar o movimente, fazer seu registro, passando assim a integra-lo.
Nosso Planeta, nosso lar, nosso mundo precisa de socorro, precisa de cada um de nós para sobreviver e garantir a vida de nossos descendentes. Participem. Façam rua parte.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sob um céu azul de primavera...


Linda, linda tarde de primavera! Tarde de um céu azul, tão suave... O sol vai se esparramando pela cidade, preparando-se para um lindo crepúsculo, daqueles de tirar o fôlego. Finalmente a primavera! Nem quente nem frio o dia foi cenário para sorrisos mais abertos, planos de um happy hour num dos tantos cafés e barzinhos da cidade, antes do regresso à casa. Imaginem que houve até o som alegre de um assobio de alguém que passava pela rua!... Fazia tanto tempo que isso não acontecia. Porque será que os homens não assobiam mais enquanto caminham em sua volta para casa, como usava acontecer nos meus verdes anos? Não somos um povo triste e, no entanto, já não cantarolamos, já não sorrimos como antes, já não conhecemos nossos vizinhos, já não confiamos tanto uns nos outros. A modernidade, o progresso, foram endurecendo o homem, foram tornando-o mais só...
Ah, mas pensar nisso agora, sob este céu de primavera? Melhor não. Melhor aproveitar o momento e encher a alma deste azul infinito que tinge o espaço e tentar cantarolar ainda que desafinada, uma doce canção...

"É primavera, te amo...
Meu amor trago esta rosa
Para lhe dar..."

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Recomendação em dose dupla


Tenho recomendado aos leitores e amigos do "Em Prosa e Verso" alguns blogs especiais, dos quais gosto muito. Hoje venho recomendar não um, mas dois excelentes blogs da minha querida amiga Anine. Professora de literatura em sua querida Juiz de Fora, MG, traz para seus leitores seus conhecimentos e seu gosto pelos grandes escritores e poetas da língua portuguesa e não só. Em "Poesia, Expressão da Alma" ela nos traz lindos poemas e textos que nos encantam e em "Poesia, Expressão da Alma Vida e Obra" ela se aprofunda pela vida e obra dos mestres das letras. E em ambos ela nos proporciona links para downloads de cada obra.
Vale a pena conferir.

Na noite fria, Drummond...


Os ombros suportam o mundo

Chega um ponto em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor
Porque o amor resultou inutil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão, mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos,

Pouco importa que venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
Prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Meus Poetas do Coração - VINICIUS DE MORAES


Parte e tu verás

Parte, e tu verás

Como as coisas que eram, não são mais
E o amor dos que te esperam
Parece ter ficado para trás
E tudo o que te deram
Se desfaz.

Parte, e tu verás
Como se quedam mudos os que ficam
Como se petrificam
Os adeuses que ficaram a te acenar no cais
E como momentos que passaram apenas
Parecem tempos imemoriais.

Parte, e tu verás
Como o que era real, resta impreciso
Como é preciso ir por onde vais
Com razão, sem razão, como é preciso
Que andes por onde estás.

Parte, e tu verás
Como insensivelmente esquecerás
Como a matéria de que é feito o tempo
Se esgarça, se dilui, se liquefaz
E qualquer novo sentimento
Te compraz.

Repara como um novo sofrimento
Te dá paz
Repara como vem o esquecimento
E como o justificas
E como mentes insensivelmente
Porque és, porque estás.

Ah, eterno limite do presente
Ah, corpo, cárcere, onde faz
O amor que parte e sente
Saudade, e tenta, mas
Para viver, subitamente, mente
Que já não sabe mais
Vida, o presente; morte, o ausente -
Parte, e tu verás...

No Dia das Crianças, minhas crianças...


Ai estão as minhas crianças... Meus filhos que foram chegando à minha vida trazendo muito amor, muita alegria, muito orgulho, misturado a toda preocupação que sempre rodeia os pais. Cresceram quase sem que tivesse me dado conta disso. De repente, lá estavam eles, senhores de suas vidas, tomando seus caminhos, formando suas familias e me trazendo novas e queridas crianças. Um renovar de amor, alegria, orgulho e, como não poderia deixar de ser, preocupação, tipica das avós. E metade deles já não é mais criança. Caio fez dezoito anos, Bia faz dezoito no próximo dia vinte-e-um, Gabriel já fez catorze. Então este dia pertence ao César, que tem onze, ao Philip, que tem dez e ao Alexander que tem oito anos? Na-na-ni-na-não!... Pertence a todos eles, lindas e queridas crianças de meu coração, e pertence aos pais deles, Ubirajara (Caio), Fábio (Bia, Gabriel e César) e Angélica (Philip e Alexander), porque em meu coração eles ainda são os meus meninos, as minhas crianças muito amadas. E serão para sempre.
Então, um terno e doce beijo para as minhas nove crianças, meu carinho, meu amor e meu muito obrigada por virem para minha vida, que se tornou iluminada e linda pela presença de cada um de vocês.

domingo, 11 de outubro de 2009

Meus Poetas do Coração - Mais uma vez, Thiago de Mello


Narciso cego

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio – não me frequento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distinguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelo declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talves em Deus
sonhe comigo, cobice
o que guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-se sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo – calado pânico -
entre o sonho e o sonhador.

sábado, 10 de outubro de 2009

Numa noite de sábado...


Tranquila noite de sábado!... Um friozinho gostoso, um bom livro, o som da guitara e da voz de meu filho chegando lá da sala, minha poltrona favorita, um xícara de chá sobre a mesinha ao lado... Um aconchego, uma paz, um momento a se sentir, a se viver, a se guardar...
Numa noite quase perfeita, só falta o luar entrando pela janela entreaberta e a brisa agitando suavemente a cortina...

Ah... na verdade, o que falta mesmo, é você...

Pequena história numa manhã cinzenta


Naquela manhâ chuvosa e fria, em pé, diante da janela, olhando para as gotas de chuva que rolavam pela vidraça, ela se perguntava porque estava se sentindo assim, vazia, triste... Sentou-se diante do computador tentando transpor para a tela aquela sensação de nada, mas as mãos ficaram imóveis sobre o teclado porque a alma estava calada, encolhida, sem a costumeira tagarelice que preenchia seus pensamentos com sonhos e ideais, com lembranças e saudades. Se a alma estivesse feliz, ela cantarolava enquanto escrevia docemente. Se triste, seus escritos seriam tristes também, nostálgicos, chorosos. Mas naquela manhã não havia tristeza nem alegria... não havia nada. Apenas uma apatia, dessas que nos pegam quando temos uma decepção, quando percebemos o erro num sentimento, numa atitude, num sonho inútil, desses que às vezes vira pesadelo. Mas nem fora essa a causa... Seus dias tinham sido bem agradáveis, nenhuma turbulência ou preocupação maior. O tempo enfarruscado? Ora, ela sempre gostara de escrever num dia cinzento... Saudades? Saudades eram suas amigas constantes, umas vezes rasgantes e doloridas, outras vezes doces, amenas...

O toque do telefone tirou-a de seus pensamentos. Ao atender sentiu uma lufada de perfumada brisa envolver sua alma que finalmente sorria. Entendeu, então, o porque daquele estado d'alma, sua alma inquieta, irreverente, descuidada, que ainda não aprendera a controlar seus impulsos, ainda não entendera que já se fizera há muito, a hora de se recolher ao seu devido lugar. O fato é que, de repente, o dia pareceu ficar azul, o canto dos pássaros era mais doce, a música era linda e seu cantinho, antes vazio, tornara-se aconchegante.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Meus poetas do Coração - THIAGO DE MELLO


Confidência para ser gravada na lâmina da água

Caminho bem na minha solidão,
porque sei de mim mesmo o que perdi.
Não tenho mais precisão de mentir.
Enfrento cara a cara o desamor
que mal me disfarcei. Não fui capaz
de ser o que sonhei, Fiquei aquém
das palavras ardentes que inventei
para que um dia triunfasse o amor.
Porque não dei, com medo de perder,
o diamante mais puro, no meu peito,
inutil de fulgor, se consumiu.

Três tercetos de Thiago de Mello


Amor não se agradece.
Quem dá o que canta lá dentro
do coração - se enriquece.

**********

Te amar (estremeço)
me leva perto de Deus.
De repente O mereço.

**********

Acho o meu caminho
quando a mão dela me leva.
Não sou mais sozinho.

"Yes, We (really) Can"

O mundo anseia tanto pela paz - e quando digo "mundo" digo as populações dele, não a maioria de seus dirigentes, que quando um jovem presidente (que vencendo barreiras e preconceitos conseguiu chegar à Casa Branca) acena com a possibilidade dessa paz, ou pelo menos demonstra querê-la, é agraciado com um dos mais ambincionados prêmios - o Nobel da Paz! Espero que ele faça por merecê-lo, que ele honre a confiança nele depositada.

Parabéns, Barack Obama.

(No link abaixo, a noticia)


http://noticias.uol.com.br/ultnot/internacional/2009/10/09/ult1859u1656.jhtm

Meus poetas do coração - MARIO QUINTANA


Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem, nalgum móvel antigo...
Mas é preciso também que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Cecília Meireles - Toda poesia


Vimos a lua

Vimos a lua nascer na tarde clara.

Orvalhavam diamantes, as tranças aéreas das ondas
e as janelas abriam-se para florestas cheias de cigarras

Vimos também a nuvem nascer no fim do oeste.
Ninguém lhe dava importância.
Parece uma pena solta - diziam.
Uma flor desfolhada.

Vimos a lua nascer na tarde clara.
Subia com seu diadema transparente,
vagarosa, suportando tanta glória.

Mas a nuvem pequena corria veloz pelo céu.
Reuniu exércitos de lã parda,
levantou por todos os lados o alvoroto da sombra.

Quando quisemos outra vez luar,
ouvimos a chuva precipitar-se nas vidraças,
e a floresta debater-se com o vento.

Por detrás das nuvens, porém,
sabíamos que durava, gloriosa e intacta a lua.

Cadê meu céu de primavera?


Esta primavera caminha enfarruscada, um friozinho de outono, dias cinzentos com chuvas e trovoadas de verão... Como meu querido pai costumava dizer quando o tempo ficava assim indeciso, instável - parece que o tempo enlouqueceu!...

Hoje, antes do dia clarear, já os bem-te-vis arrelientos faziam arruaça nos beirais dos telhados, nas árvores da rua. Agora há pouco o beija-flor veio sugar a água açucarada que colocamos no terraço, todo dia, especialmente para ele e, claro, sempre há outros pássaros que aproveitam e vem se deliciar com uma aguinha doce (ah, que falta faz a trema sobre a letra u... rs...) E tudo isso me faz lembrar que é primavera, alem das flores que começam a dar sinais de vida. Mas aonde foi parar "meu céu azul de primavera, onde bem doce a vida era, nessas risonhas manhâs" tão bem cantadas por Casimiro de Abreu? E parece que isso já vem de longe, porque Drummond já nos contara uma Indagação:

"Na morta biosfera,
o fantasma do pássaro
inquiriu
ao fantasma da árvore
(que não lhe respondeu)
- A Primavera já era
ou ainda não nasceu?"

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ainda Meus Poetas do Coração - Cecília Meireles


Sobre um passo de luz outro passo de sombra


Sobre um passo de luz outro passo de sombra.
Era belo não vir; ter chegado era belo.
E ainda é belo sentir a formação da ausência.

Nada foi plenejado e tudo acontecido.
Movo-me em solidão, presente sendo e alheia,
com portas por abrir e a memória acordada.

A acordade memória! esta planta crescente
com mil imagens pela seiva resvalantes,
na noite vegetal que é a mesma noite humana.

Vejo-me longe e perto em meus nítidos moldes,
em tantas viagens, tantos rumos prisioneira,
a construir o instante em que direi teu nome!

Que labirintos bebem meu rosto?

Meus poetas do coração - Vinícius de Moraes


O mais-que-perfeito


Ah, quem me dera ir-me
contigo agora
Para um horizonte firme
(Comum embora...)
Ah, quem me dera ir-me!

Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que não presumes...
Ah, quem me dera amar-te!

Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais cuidado...
Ah, quem me dera ver-te!

Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te...

(Montevideo / 1958)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Um blog que recomendo (6)

(Foto Osvaldo)

Apenas chegada à blogosfera, comecei logo a descobrir blogs incríveis, que me encantavam pelo estilo, pelo conteudo, pela apresentação, cada qual a seu modo. E a primeira coisa a chamar minha atenção, claro, eram os nomes desses blogs. A Isa tinha lá o seu "Momentos Meus", A Ana encantava com a poesia do seu lindo "Ave sem Asas", a Fernandinha esbanjava beleza nas fotos e nos poemas de seu "Fernanda & Poemas"... Um dia, seguindo links contidos num desses blogs, deparei-me com um "Mau, Triste e Feio". Fiquei olhando para aquele nome e me perguntado qual seria seu conteúdo, porque teria seu criador escolhido um nome tão diferente e ao mesmo tempo sugestivo. Fiquei tão curiosa que fui logo clicando no link, sem ter a menor idéia do que iria encontrar. Quando a página se abriu, tive uma agradável surpresa: Não era mau, nem triste e estava muito longe de ser feio. Era um maravilhoso recanto de cultura e conhecimento sobre artes, através das excelentes fotos e dos textos bem construidos pelo seu criador. Claro que já sabem que estou falando do Osvaldo. Acredito mesmo que a maior parte dos leitores e amigos do "Em Prosa e Verso" seja contituida por assíduos frequantadores do Mau, Triste e Feio.
E se houver algum leitor mais recente, que ainda não o conheça, recomento uma visita com calma e tempo para passear por jardins, perder-se pelas salas de lindos museus, conhecer cidades, e fazer um bom amigo. Vale muito a pena.